Exposies

Nulo ou em Branco

DE 27/09/2016 - 05/11/2016 A

 

(2016)

A Galeria Vermelho apresenta Nulo ou em Branco, individual de Marcelo Cidade e Fructose, novo filme de Iván Argote.
De 27 de setembro a 05 de novembro de 2016.

No dia da abertura das exposições, será lançado o novo livro de artista de Cidade, Fogo Fato, uma parceria das editoras Edições Tijuana e Meli-Melo Press.

Ainda em 27 de setembro, o Tijuana recebe o lançamento do livro de artista Cem Terras, de Renata Pedrosa, editado pela Annablume Editora.

No encerramento da exposição será lançado o livro Empena Cega, primeiro volume monográfico dedicado inteiramente a obra de Marcelo Cidade com registros e reflexões dos primeiros 15 anos de carreira do artista. Empena Cega é editado pela Editora Cobogó, em parceria com Galeria Vermelho e Galeria Continua e com organização de Kiki Mazzucchelli.

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Marcelo Cidade

Em sua quinta individual na Galeria Vermelho, Nulo ou em Branco, Marcelo Cidade apresenta trabalhos que dão continuidade a sua pesquisa entorno da tensão entre o público e o privado e a observação do comportamento humano dentro dessa bifurcação. Os trabalhos reunidos propõem intersecções espaciais e temporais que se relacionam com politicas sociais e, assim, com o lugar do corpo, sendo ativados pela presença ou pela ausência de pessoas em relação às obras.

Nulo ou em branco

Cidade utilizou as tradicionais cabines de votação brasileiras para elaborar a obra que da titulo a exposição. Construída a partir de cortes e dobras em folhas de papelão, tal e qual as cabines oficiais, a cabine de Cidade foi revestida em cimento, formando uma espécie de “bunker” para o eleitor realizar sua escolha em segredo. No trabalho, o gesto democrático de escolha de um candidato que melhor represente os valores de cada um se torna uma experiência que carece de proteção e segurança.

Ocitarcomed

Na fachada da Vermelho está a instalação Ocitarcomed, 2016, que soletra de maneira invertida e espelhada a palavra democrático, utilizando garras de proteção de muros para construir cada letra. A tipografia faz alusão às letras utilizadas por pichadores nas ruas e funcionam, assim, como códigos cifrados, de leitura desafiadora. Marcelo Cidade tece um comentário sobre o atual status da democracia brasileira como algo deformado e impreciso.

A_____________social

Na série A___________ social, de 2015, Marcelo Cidade apresenta imagens colecionadas a partir da internet em que figuram tentativas de invasão a domicílios. Nas imagens, salteadores inábeis aparecem presos em elementos arquitetônicos como janelas, chaminés e grades. Junto a cada imagem reproduzida em serigrafia, Cidade acrescenta aforismos retirados do texto Arquitectura social, três olhares críticos, de Luís Santiago Baptista, Joaquim Moreno e Fredy Massad, aonde os autores articulam aspectos essenciais das relações e implicações da arquitetura social num mundo em crise e conflito. Cidade, finalmente, retira o termo “Arquitetura Social” de cada axioma, deixando em seu lugar uma linha, como que a ser preenchida pelo observador.

Vende-se para levar

A parede principal da sala 1 da galeria é preenchida por uma grande imagem ampliada com técnicas de impressão para outdoor. A imagem apropriada da internet mostra uma obra de um viaduto abandonado no Maranhão aonde características da arquitetura modernista aparecem incutidas. A falta de qualidade da imagem, ampliada com técnica de bitmap, evidencia o abandono da construção e dos ideais modernos do projeto. Por cima do grande painel, uma faixa em tecido anuncia: Vende-se para levar.

Cidade transpõe dois elementos comuns à disseminação do comercio no espaço público ao interior – o outdoor e a faixa – para examinar o comercio da arte, além de elementos típicos da formação cultural brasileira.

(un)monuments for V.Tatlin

Na série (un)monuments for V.Tatlin, Marcelo Cidade recria os Monumentos que Dan Flavin fez em homenagem a Vladimir Tatlin, utilizando estruturas de luminárias de sobreposição para lâmpadas fluorescentes. Enquanto Flavin utiliza as lâmpadas a fim de arguir a impermanência dos materiais e, assim, dos sistemas, Cidade trabalha em torno da ruina. Nas recriações de Marcelo Cidade, já não há mais espaço para a impermanência, há apenas o resíduo inútil de um plano utópico.

Realidade placebo

Em Realidade Placebo, Cidade reproduz cartelas de LSD com imagens de recentes confrontos entre manifestantes e a força policial repressora. O delírio proposto pelas doses de LSD não é alucinação, uma vez que os cartões são placebos, estão vazios. No lugar de fantasiar sobre a ação que a imagem mostra, somos confrontados com a realidade dos fatos.

Confortável conformismo

Em Confortável Conformismo, Cidade trabalha com instruções que devem ser seguidas pelo organizador, pelo curador, pelo produtor, ou por qualquer outra pessoa relacionada à exposição da qual a obra fará parte. Em sete passos, o artista descreve como um colchão de molas deve se encontrado abandonado pelas ruas da cidade em que o trabalho será mostrado, para em seguida ser queimado e relocado ao espaço expositivo em um ângulo de 90 graus com a parede. A apresentação faz menção a obra Sem título (Double Amber Bed), de 1991, de Rachel Whiteread, aonde a artista pretendia comentar a vida dos moradores de rua de Londres no inicio da década de 1990, trazendo para o interior da galeria um objeto de uso cotidiano das ruas.

Ao se desvincular dos processos de produção da obra (para além da concepção), Cidade abre espaço para que o acaso prevaleça.

As instruções são:

1)a produção desta obra não depende do artista, podendo ser executada tanto pelo curador, pelo produtor, ou por qualquer pessoa que faça parte ou não da organização da exposição em que a peça será mostrada.

2) o colchão que compõe a obra deve ser de molas, com estrutura em ferro.

3) o colchão deve ser encontrado nas ruas da cidade aonde a peça será mostrada, não podendo, assim, ser comprado novo ou usado.

4) como este objeto será encontrado, a obra final não tem uma forma fixa.

5)a queima pode ser feita da maneira mais segura possível. Sugiro, assim, que a mesma seja feita ao ar livre, utilizando álcool ou gasolina.

6) depois da queima, a estrutura física de ferro e molas deve ficar aparente

7) depois de fria, a estrutura deve ser deslocada para o espaço expositivo e instalada dobrada em um angulo de 45 graus entre chão e parede.

Pobre minimalismo

Na série Pobre minimalismo, Cidade envolve caixas de papelão com a materialidade típica das edificações – o cimento – e destaca, assim, a permanência do aparato como algo intangível pelo poder publico e profícuo para aqueles que deste dependem. O papelão esteve muito presente em recentes noticias sobre a cidade de São Paulo e o processo de higienização social conduzido pelos poderes estadual e municipal que a cidade vem observando. Em uma série de ações conduzidas recentemente pela polícia, sob o comando dos poderes acima citados, os moradores de rua foram proibidos de acumular papelões e tiveram esses materiais confiscados.

O papelão, elemento muito trivial do cotidiano, carrega em si uma grande potencia simbólica para os habitantes de metrópoles, em especial para a população sem teto. Com os papelões, aqueles que habitam as ruas podem se proteger do frio e da chuva, criando espaços privados dentro do território publico. Os papelões se tornam casas e podem ser utilizados como moeda de troca em locais que compram materiais recicláveis. Em movimentos de resistência o papelão é tradicionalmente utilizado por sob as roupas dos manifestantes para atenuar possíveis efeitos de confrontos com policiais, como balas de borracha, por exemplo.