Exposies

Rosângela Rennó - Forma, conteúdo e poesia

DE 13/04/2010 - 08/05/2010 A

 

Release

(2010)

Rosângela Rennó apresenta três instalações:2005-510117385-5(2009), feita a partir de 751 fotografias roubadas da Fundação Biblioteca Nacional, em 2005; Carrazeda + Cariri(2009), obra composta por cinco conjuntos de retratos de base fotográfica realizados por “foto pintores”, da região do Cariri (CE);  Matéria de Poesia (2008); e vídeo Bouk (2006 – 2009), criado a partir de uma residência realizada pela artista na Ilha da Reunião, em 2006.

2005-510117385-5(2009), além de instalação na galeria, é o título do livro publicado recentemente por Rennó. A obra apresenta imagens do verso das 101 fotografias recuperadas até o momento pela polícia carioca. A maior parte dessas fotos retornaram ao acervo da FBN bastante danificadas já que para revendê-las os autores do furto tiveram que retirar os registros catalográficos que apareciam no verso das fotos. 2005-510117385-5 apresenta o verso dessas 101 fotografias que tiveram seus cantos recortados ou camadas de papel retiradas para esconder sua procedência. O que a instalação revela é a ausência, o buraco que a falta dessas imagens representa para o acervo da FBN e para a história do Brasil. 2005-510117385-5 é o número do inquérito criminal que apura o roubo, ainda sem conclusão.

Em Matéria de Poesia (2008), a imagem surge como resultado de um processo de acúmulo, de sobreposição de vários slides fotográficos adquiridos pela artista ao longo dos anos. O processo de saturação da imagem gerou o apagamento quase que total da cor. Todas as imagens criadas são muito parecidas, mas totalmente diferentes, pois partem de slides distintos, usados no processo apenas uma vez. Reunidos, cada um dos três conjuntos com seis imagens que integra a individual formam uma única paisagem, ou como afirma Rennó, um único apagamento de paisagem.  O texto associado à imagem pertence ao universo literário fantasioso de Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido no Mato Grosso, em 1916, hábil mestre da criação de neologismos e de figuras poéticas a partir do prosaico, do simples, do chulo, do infantil, do lixo e do próprio “nada”.

Carrazeda + Cariri (2009) utiliza procedimentos bastante distintos do utilizado em Matéria de Poesia. Para criar Carrazeda + Cariri, Rennó coletou na internet retratos que acompanham anúncios de casamento de homens moradores da cidade de Carrazeda deAnsiães, em Portugal,onde a presença de mulheres que querem se casar é pequena por conta das agruras da vida rural. Depois de ampliados, os retratos foram enviados aos foto pintores do Cariri, Mestres Abom, Demontier, Jean e Cícero, de Juazeiro do Norte e Mestre Júlio dos Santos, de Fortaleza, que retocaram cada um deles com pastel seco, técnica de colorização de imagem que empregam até hoje.

Imortalizar os retratos isolados dos homens de Carrazeda funciona como cristalizar uma situação singular, terminal, uma disfunção social aparentemente sem saída. Porém, no Cariri, cada artesão pinta seus retratos de uma forma diferente; cada um imprime seu traço específico sobre o retrato original, multiplicando as possibilidades estéticas de cada retrato e, por extensão, de cada retratado, tornando-o uma espécie de “singular plural”. É como se o Cariri desse a Carrazeda uma resposta provocativa ao celibato, às disfunções sociais e à situação limite do fim do retrato.

As imagens que o compõem Bouk(2006-2009) foram capturadas na Ilha da Reunião - um departamento francês ultramarinho, emerso no meio do Oceano Índico — durante uma volta completa pela ilha, dentro de um carro, em 2006 e só foram editadas, no Brasil, três anos depois. A edição tardia representou um retorno àquela volta em torno da ilha, ao revés, como se a idéia do retorno e sua eternidade só fossem possíveis através do som e da imagem de trás para frente, em um loop sem fim. As sequências de imagem foram estendidas ou ralentadas e a camada de imagem foi tonalizada com as cores básicas da tricromia de impressão (cian, magenta e amarelo). Esse procedimento de  superposição gerou uma imagem em movimento com uma improvável combinação de cinzas e brancos, imprecisos e fugazes. O som quase mântrico obtido pela reversão das músicas de Daniel Waro, cantadas em língua crioula da Ilha da Reunião, sugere um lamento indecifrável que acompanha as imagens que resistem ao desaparecimento em ‘preto e branco’ — da mesma maneira que a língua crioula, em sua esperteza, sempre desafiou e resistiu à dominação da língua do conquistador.

Leandro