Exposies

Coletiva - Vizinhos

DE 02/08/2003 - 23/08/2003 A

 

Cauê Alves, Juliana Monachesi e Paula Alzugaray

Mar do Japão Tem um limite entre vida e morte na sala grande, a sala preta é um limite, o corte na pele é um limite, a confissão das siamesas é um limite, o cofrinho é o próprio limite tornado objeto: a mendicância é o limite da dignidade. Mas então as trouxas vísceras pedem que a gente escale esse espaço rumo a um outro, acolhedor lá em cima, em que pisamos doce, adentramos diários e intimidades doídas, flutuamos, duvidamos.

O mezanino da galeria funcionou como um ateliê ao longo das duas semanas de montagem. Os desenhos foram ganhando a parede, brigando com ela, foram apagados com tinta, a memória sendo depositada sob as camadas de branco, como páginas que não se viram mais. A vizinhança por vezes foi conflituosa, tensão apaziguada depois pela generosidade dos vizinhos e pelas afinidades insuspeitas que só a proximidade possibilita descobrir.

Um mapa da vizinhança, relacionando artistas e zonas temáticas, poderia começar pelo território da doação, em que se situam oferendas, dedicatórias e confissões: as declarações de amor de Fábio Tremonte para sempre inscritas nas paredes, o coração que Graziela Kunsch escancara em troca de ajuda para realizar o trabalho em que realmente acredita. Todo o âmbito da doação é vicinal à vasta extensão dos mitos de Penélope, com suas elaborações ritualísticas de prendas/obras, que se prolongam no tempo. Nos tacos de rapadura de Martha Lacerda e nas costuras de fragmentos densos de memória dos desenhos de Cláudio Matsuno estão intrínsecos os movimentos contidos das bordadeiras.

O aroma é um presente; ele envolve mesmo quem não quer se envolver: contamina. A angústia dos desenhos que convulsionam na direção do bueiro de ouro atravessa quem passa, contamina também qualquer certeza. E a história de amor na parede anexa não esmorece as incertezas, porque esvazia o céu de possibilidades, planta o inconformado na terra, enreda-o na vida rasteira: a mudança precisa ser feita aqui e agora.

O romantismo, por questionado que seja, está no ar. Não há germicida que o dissimule. Ao contrário, ele combate a assepsia em que o sujeito contemporâneo mergulhou, em que a arte se acomodou, a assepsia das relações humanas e da vizinhança cordial. Aqui, a cordialidade não foi de todo superada. O tempo foi curto, as reuniões foram poucas, mas foram únicas. São quinze estranhos domiciliados, pela conjuntura, no mesmo endereço. Quinze que vêm a ser dezessete, que vêm a ser vinte e um e quantos mais agregados se deixaram contaminar.

Antes de um mapa das heranças de novos artistas que reivindicariam a influência de Leonilson, Vizinhos traça relações bastardas entre a produção de gerações distintas. Essas, por serem menos óbvias, são as mais significativas relações entre os trabalhos. A contiguidade entre o eu e o outro, que está em "El Puerto", de Leonilson, leva à região das identidades coletivas, exploradas no trabalho de Ana Teixeira, composto de identidades poéticas permutáveis compartilhadas entre os voluntários.

Vizinho das declarações de amor, o espaço do diário poético lembra o gesto do poeta Kavafis, que usa o trabalho cotidiano para descrever suas paixões. As gravuras de Leya Mira Brander, os desenhos de Cláudio Matsuno, as monotipias de Eliane Testone, as fotografias e os livros esculpidos de Fabio Morais são, mais que páginas de um diário, estrofes de poemas.

A coreografia da hospitalidade deu lugar a um manifesto coletivo acerca do nosso passado recente e das vicissitudes de um sistema de arte perverso. E uma galeria experimental/comercial deixa-se estampar por esta crítica. Acolhe a divergência, incorre neste perigo. Uma das artistas questiona-se sobre o que é ser perigoso nos dias de hoje, outra investiga os medos alheios transparecendo o seu próprio e o nosso, outra borra a idéia de identidade. Há muitas perguntas nesse percurso e são tantas as...

Nos arredores das páginas dos diários, vagam soltas as alegorias do perigo, que evocam as forças incontroláveis da natureza: a queda, o abismo, os pêndulos, a espiral, a corda bamba. As reflexões sobre os perigos das contaminações no trabalho de Jorge Menna Barreto remetem à higienização social implementada pelo nazismo. As vertigens do medo e da escuridão da instalação de Verônica Cordeiro. As miragens produzidas pela dor do corte: Rafael Assef.

As sementes de flores na banquinha em um país distante, os traços demorados em páginas que não vêem a hora passar, a suspensão cor-de-rosa que dilui em chuva e vôos cegos a memória afirmam a diversidade de durações para a existência.

Preâmbulo da exposição, servem também de desfecho: o limite entre vida e morte, o ouro de artista a que tudo converge, a perda, o abismo, a impossibilidade de completude, a impossibilidade de que nos falou Leonilson convivem aqui, sussurados, mas apontam um tempo outro, nem passado nem futuro, o tempo presente, que apavora, que desgasta, mas que é único e impulsiona a gente a se doar para a vida.

Ainda mais desgarrados, os rastros do andarilho, com as marcas das dificuldades do percurso, ampliam os limites desta vizinhança para muito além da galeria. Neste grupo, a estrutura interna dos corpos confunde-se com fragmentos de mapas urbanos e com os caminhos que vão dar no mar (o rio e seus afluentes). Renato Dib oferece seus abraços intestinais e “deentrâncias”, Eliane Testone manda notícias de Londres por fax e Jorge Menna Barreto dilui sua confiança no fundo do oceano. A referência a Leonilson é menos uma homenagem que uma constatação da sua fecundidade. Os caminhos abertos pela sua obra trazem a possibilidade de sua continuidade e superação. O devir e o porvir são vislumbrados na lacunas de seu trabalho, nas portas e janelas que criou.

Vizinhos é o resultado de um intenso processo de um mês iniciado e incentivado pela Galeria Vermelho e pela crítica e curadora Lisette Lagnado. A proposta foi feita a um grupo de curadores que não conheceu Leonilson em vida, para que pudessem identificar reflexos de sua produção em jovens artistas. Após algumas visitas ao Projeto Leonilson, leitura do inédito diário originalmente gravado em K7, Frescoe Ulisses, o grupo de curadores realizou estudos sobre sua produção.

Durante a visita aos ateliês dos artistas os curadores perceberam como a vontade de mudar o mundo, explícita em telas e desenhos de Leonilson, reaparecem em artistas que hoje se organizam em coletivos. Nos desenhos de Tremonte é presente a dúvida sobre esta possibilidade. As sentenças “Leo não consegue mudar o mundo”, “Leo consegue mudar o mundo” ou “Grazi consegue mudar o mundo”, referência a Graziela Kunsch, ou ainda “Grazi não consegue mudar o mundo, mas por favor continue tentando” expressam a insatisfação de artistas que buscam transformar o mundo por meio da arte.