Exposies

Coletiva - In ´vel

DE 24/06/2003 - 19/07/2003 A

 

Cristiana Mazzucchelli e Thomas Groves

IN ´ VEL Durante todo esse tempo a grande dificuldade foi tentar encontrar palavras para se falar do futuro. Tudo se encontrava ainda num plano muito abstrato, devíamos falar de algo que ainda não estava no mundo, não tinha forma, peso, cor e, ainda que soubéssemos em linhas gerais quais as formas que tomariam finalmente, nenhuma relação sensível podia ser estabelecida com aqueles objetos e ações que até então não existiam. E não tínhamos nada ainda. Mas, assim como o filósofo Henri Bergson, que dedicou dezenas de páginas em seu livro Evolução Criativa para provar que a idéia do “nada” não passa de uma (das muitas) ilusões do intelecto, escolhemos buscar, em meio às diferentes imagens ainda em gestação, o nosso refrão. Porque as ressonâncias se faziam identificáveis, cada imagem mantendo sua individualidade mas ao mesmo tempo tornando-se outra coisa, habitando um plano comum. Como quando se forma um acorde de guitarra: eu posso tocar um dó, e ele será apenas um dó, mas se tocar, por exemplo, um dó, um mi e um sol ao mesmo tempo, terei um acorde de dó, que é ao mesmo tempo ainda um dó, mas também algo completamente diferente.

E se as notas, nesse caso, exprimiam imagens das mais variadas, cujas qualidades e forças partiam dos domínios mais diversos como a linguagem, o corpo, o espaço, o que ressoava era um duplo movimento: por um lado a incapacidade, a paralisia, o desconforto causado pelo reconhecimento de que no mundo contemporâneo já não é mais possível se encontrar uma verdade única e estável e, por outro, a infinita gama de novas possibilidades abertas por essa “falta”, afirmadas, em primeiro lugar, pela própria existência física dos trabalhos que ia se concretizando aos poucos, a maneira com que fazem visíveis novas formas de sensibilidade. Mas o resultado é uma configuração temporária, específica, na qual pedaços ou componentes de cada trabalho se intersectam para formar uma estrutura que existirá apenas enquanto as diferentes forças que a compõe consigam manter esse agrupamento. O tempo funciona então como motor criativo, avançando sempre num movimento que desencadeia associações e dissociações, um fluxo onde convivem forças contraditórias.

Deveríamos, no entanto, desafiar a iminência de uma desordem e de uma ordem totais que vem da abstenção de se procurar um significado apenas, de se posicionar nesse plano totalmente transcendente e tentar representar aquilo que, por sua própria natureza, não se deixa representar em palavras. Deveríamos escrever com os trabalhos, encontrar, nós também, dentro do domínio das palavras, esse mesmo refrão. Tentar criar condições para que os trabalhos falem por si mesmos, evitar uma leitura que acabe por restringir suas potencialidades. Nossas histórias serão, portanto, o fio condutor para que possamos examinar, ainda que brevemente, as ressonâncias que encontramos também no campo do debate crítico. E, se nos permitimos aludir diretamente a pelo menos um dos trabalhos, (o que evitamos deliberadamente, por medo de impor uma leitura totalizadora) esperamos que esse texto, ou partes dele, funcione, como a ponta da espada que capta as ondas de rádio ao tocar o corpo do adversário em “Interferência”, como um mediador que não exerça uma força limitadora, mas que possa trazer ainda mais elementos para essa exposição.

PATINS

É sempre igual. Eu mudei para cá há quase seis meses atrás e é sempre igual. Ele vem por volta das quatro, às vezes quatro e meia da tarde. De qualquer modo é sempre depois que as crianças já foram embora, menos aos finais de semana quando, é claro, elas ficam lá fora o dia todo. Às vezes ele olha para elas também.

Eu acho que agora elas já estão acostumadas com ele, mas tenho certeza de que elas não gostam dele. As crianças sabem quando alguma coisa não está muito certa.

Sempre com o mesmo paletó mostarda, mesmo agora com a temperatura atingindo vinte e cinco graus, vinte e sete talvez. Grandes bolsos vazios, exceto pelas suas mãos. Os mesmos sapatos macios e encerados. Mesmo de onde estou, do outro lado da rua e atrás da minha cortina, eu sei que eles são macios. Macios e encerados. Macios e encerados para a não-ocasião. Nós costumávamos rir disso.

Foi então que ele ganhou seu nome, “Hello Lionel” como em “Hello, is it me you’re looking for?”Richie. Combina com ele na verdade. O mesmo penteado. O mesmo ponto de interrogação permanente, na realidade não questionando nada. Para dizer a verdade já não é mais muito engraçado, agora que o Will e os outros se foram e ele ainda ali. Não que ele saiba que eles tenham ido embora e que sou só eu que o vejo e que não é mais engraçado. Mas ele ainda olha e ele ainda é “Hello Lionel” para mim. “Hello?”

Ele olha. Por um minuto pelo menos. Para cima e na direção da janela. Ele vê a janela, as cortinas amareladas entreabertas e o céu, agora azul, refletido. Ele não vê o quer ver. Ele vê apenas o que sempre vê. A janela, as cortinas amareladas entreabertas e o céu, agora azul, refletido. Ele deve sentir uma falta incrível dela. Um mundo reduzido. Que o ato de olhar a janela torna suportável. Depois do primeiro olhar ele se move, fingindo sutileza, checando seu orgulho, precisando disso tudo ou pelo menos da ilusão que isso oferece. Isso o conecta ao que fora um dia, quando ele amava a ela e ao mundo. Torna-o responsável pela pessoa que ele acha que pode se tornar novamente. É isso que o permite voltar, e olhar e então olhar mais uma vez. Ele anda ligeiramente para o lado. Um pé levando o outro. Para. Olha. Um pouco menos dessa vez. Talvez por trinta ou quarenta segundos. Vê a janela, as cortinas amareladas entreabertas e o céu, agora azul, refletido.

Não que ele seja o único ali fora. Há muita ação na minha rua. Carros passando o tempo todo, parando no farol. Muita “diversão”, como costumávamos dizer. A polícia até fechou a área uma vez. Não deixaram ninguém entrar ou sair quase um dia inteiro. Eu estava tomando meu café da manhã e tive que ligar no trabalho, avisar que eu chegaria atrasado. Isso foi bem antes de ele chegar, é claro. Eles apontaram armas para um dos apartamentos. Talvez dez revólveres. Eu assisti à coisa toda. O cara deve ter feito algo realmente terrível porque, mais tarde, quando voltei para casa, eles tinham colocado tábuas de madeira na porta e em todas as janelas. Ficou assim por mais ou menos três meses, colecionando grafite até que eles as retiraram e uma outra família se mudou para lá.

Entretanto, isso não afetou “Hello Lionel”. Sua rota não foi perturbada. Nunca é. É sempre igual. Olha uma vez, por um minuto, anda para o lado, olha de novo por um pouco menos de tempo, então senta-se no banco, inclinando-se para frente, cotovelos nos joelhos, de costas para ela. De frente para mim. No entanto, ele não me vê. Ele vê apenas o que sempre vê. A calçada suja humilhada por seus sapatos limpos, macios e encerados. Ele fica no banco por uns três minutos. Então se levanta e olha de novo. Uma janela, as cortinas amareladas entreabertas e o céu, agora azul, refletido. Ele vai embora. É sempre igual.

Muitas pessoas usam esse banco. Alcoólatras, na maioria das vezes. Bebendo seus “90-por-cento-teor-alcóolico” enquanto eu tomo meu café. Mas eles nunca estão lá quando ele está. Eu acho que eles sabem que ele precisa mais desse espaço do que eles. É um tipo engraçado de respeito, respeitar a crise de alguém. Mas esses caras conseguem lidar com isso muito bem. Eles sabem que você sempre desacelera quando se move em direção ao centro. Que o aprisionamento é quantificável e que a coisa mais bonita que eles jamais viram foi uma garota de dezessete anos, cabelos curtos, vestindo um body de paetês azuis com milhares de rodinhas pregadas a ele.

Eu vi quando eles a viram. Eu achei ela bem bacana também, mas quando percebi o olhar de encantamento deles, o reconhecimento do impulso sereno dela, eu sabia que ela carregava de fato uma beleza transformadora, uma verdadeira líder do estilo. E eu, é claro, jamais poderia ter ouvido o que esses caras estavam falando, mas eu podia adivinhar pelo jeito com que eles executavam gestos exagerados com seus braços, que eles sabiam que tinham testemunhado algo especial, algo novo e fantástico. É uma pena que “Hello Lionel” não estivesse lá para vê-la. Ele também teria olhado para cima e a adorado. Eu desejei por um instante que ela voltasse patinando por ali de novo para que ele pudesse ver. Mas já faz tanto tempo. Acho que ela não voltará.

APORIAS

Em algum lugar entre um julgamento e um excesso existe um lugar secreto. Uma abertura. Um campo de distribuição.

Então questionamos essa falta, ou dificuldade, ou paralisia. E começamos por investigar sua origem. O fato de que essas idéias foram extensivamente trabalhadas por diversos pensadores agrupados sob o epíteto de pós-modernos ou pós-estruturalistas, termos que se referem, de maneira geral e respectivamente, a idéias que emergem em resposta ao pensamento moderno e à demonstração da natureza artificial do conhecimento. Ao contestar o pensamento moderno como “o modelo de um absoluto, de uma razão que enxerga tudo, distinto das contingências do ambiente físico e incapaz de acomodar a diversidade” , o pós-modernismo suspeita de qualquer tipo de verdade universal ou totalizadora. A multiplicidade de experiências possíveis é muito maior do que qualquer estrutura racional de conhecimento. O pós-estruturalismo, por sua vez, leva adiante a pesquisa estruturalista iniciada pelo lingüista suíço Ferdinand de Saussure em seu Course in General Linguistics, em que ele defende a idéia de que não há nenhuma correspondência necessária entre significado e significante, e questiona, portanto, como as palavras podem adquirir significado. As palavras são vistas não mais como unidades de significado independentes e fechadas, mas imersas numa rede de relações onde a própria fala, a materialidade do som cumpre um papel fundamental para a formação dos significados. O pós-estruturalismo se baseia nessas noções para desenvolver uma crítica das idéias de autoria, de estabilidade do significado, da verdade universal, etc.

Não cabe aqui mostrar as sutilezas e diferentes desdobramentos, tanto na prática artística quanto no campo da teoria, que essas tendências produziram durante praticamente toda a segunda metade do século XX. O que nos interessa aqui é a noção de falta. A dificuldade. A impossibilidade. E se a origem dessas teorias consiste num movimento de reação, desconstrução, destruição dos paradigmas precedentes, podemos dizer que elas estão constantemente olhando para trás, dependendo ainda de modelos transcendentais para estabelecer sua crítica, para dar conta das transformações cada vez mais aceleradas que se davam então nas artes, nas sociedades, na economia, na política, nas comunicações. Abrindo, é claro, diferentes caminhos não apenas para a prática teórica, desestabilizando crenças seculares.

Ironicamente, temos hoje gerações cujo paradigma é o pós-modernismo. Gerações que cresceram informadas por um estado de coisas completamente diverso daquele onde se desenvolveram essas teorias, e um estado de coisas que é, até certo ponto, produto delas. Gerações para as quais a dificuldade do moderno esteve sempre presente. Que vivenciaram outras transformações. Para as quais as questões problematizadas por este corpo teórico já tinham se materializado em práticas comuns. Então quando surge novamente a necessidade de se falar sobre a idéia de impossibilidade, desta vez ela está inscrita num outro contexto, e se re-apresenta, talvez, como uma das forças de um movimento duplo que agora é capaz de dar conta da coexistência de forças contraditórias. Ela vem acompanhada de uma força mais postiva que cria novas configurações, e que assume que essas configurações são temporárias porque estão imersas no fluxo transformador do tempo.

O sociólogo Scott Lash, em seu livro Crítica da Informação, examina o papel da teoria crítica nas sociedades contemporâneas. Ele defende a idéia de que vivemos hoje numa “sociedade da informação”, que se organiza de modo completamente diferente da ordem moderna das manufaturas nacionais e que portanto é preciso pensar a crítica em termos de informação. “Eu entendo a contemporaneidade em termos de sociedade da informação, ou sociedade de risco, capitalismo tardio, etc. A sociedade da informação é, primeiramente, preferível ao pós-modernismo no que tem a dizer sobre os princípios dessa sociedade e não sobre o que veio antes dela.

O pós-modernismo, especialmente neste sentido, vem depois do modernismo.

Segundo, o pós-modernismo lida genericamente com a desordem, a fragmentação, a irracionalidade, enquanto a noção de informação dá conta tanto da (nova) ordem e da desordem que experimentamos. A desordem (irracionalidade) é geralmente uma conseqüência não intencional da ordem (racionalidade).” Para ele, o que houve foi uma mudança de um registro de significados para um de operacionalidade, onde devemos questionar como funcionam as coisas, ao invés de tentar encontrar significados escondidos por trás delas.

VACAS

Elas sabiam o que era o quê. Estava em seus olhos. Elas sabiam que você sempre diminui a velocidade quando se move em direção ao centro; que o aprisionamento é quantificável. Eu tenho olhado nesses olhos todas as noite desde aquela noite e toda noite eles me olham desse mesmo jeito. Todas as vinte e três. Como todos os mundos de tristeza/paralisia que já passaram e que virão. Me pedindo perdão. Como se eu soubesse por que perdoá-las. Por sua relutância nervosa talvez. Elas escolheram não se mover. Eu sei que pode parecer bem estranho. A mudança repentina de velocidade deve ter afetado de algum modo o seu senso de perspectiva. Catapultadas de um meio de transporte viajando a 100 km por hora, para o asfalto preto a zero km por hora, voando 35 metros na estrada. Muitas delas tiveram as pernas quebradas, outras foram esmagadas, mas não todas. Algumas não se machucaram tanto, tenho certeza. Enquanto eu caminhava por entre elas, nenhuma se movia. Elas estavam deitadas apenas, totalmente imóveis e em silêncio, mesmo antes de começarem a pegar fogo. As cabeças para o lado. Os cascos todos dobrados por debaixo.

Quando uma vaca pega fogo, ela queima devagar. De fora para dentro. Eu assisti todas as vinte e três. Queimarem até os ossos. O óleo preto escorrendo do tanque do trailer, encontrando-as, uma por uma onde estavam deitadas. As chamas seguindo a linha. E elas eram grandes. Eu já vi muitas vacas antes. Mas quando você vê uma esticada e toda fodida, emoldurada por um trailer em chamas, elas parecem meio gigantes. Um arquipélago de vacas gigantes em chamas.

Nenhuma delas disse uma palavra. Todas choraram. Eu chorei. Como um imenso terremoto molecular interno. Em silêncio, e para mim mesmo e, assim fazendo, estabeleci uma corrente descontínua, e iniciei uma viagem imanente.

VOCÊS DEVEM CONHECER A NOSSA VELOCIDADE

Não que tenhamos respostas. Mas vemos e ouvimos e tocamos e somos tocados por milhares de coisas todos os dias. E sabemos que precisamos redescobrir a nossa velocidade. Que o tempo e o espaço foram comprimidos. Que o poder é não-linear.

Então tentamos fazer com que algo passasse entre as palavras e os trabalhos e vice-versa, mesmo que tenha surgido a necessidade de se examinar uma preocupação comum a todos envolvidos no processo dessa exposição. Mas acima de tudo, permitir que as relações ocorram de forma mais fluida, e que essas relações se combinem de maneiras inesperadas, e que continuem a se combinar com outros elementos no futuro, além dessa configuração temporária.

Portanto a idéia de movimento, de avanço qualitativo no espaço e no tempo. Uma trajetória composta de todas as acelerações e desacelerações possíveis. Nos movemos sempre para frente, mas nunca na mesma direção. Não de forma linear, mas explosiva. Será que isso tudo é um grande mal-entendido de nossa parte ou o testemunho de algo de uma beleza excepcional?

PULO

Lembrei-me também da história que você me contou, de quando foi ao parque e como voltou ao mesmo lugar a que tínhamos ido naquele dia dos ventos de 120 km por hora, aquele dia em que todas as ruas estavam cobertas de galhos e folhas e sacos plásticos e todo o tipo de coisas que um vento desses pode arrastar. E como nesse dia, há um ano atrás talvez, tive que segurar com toda a força o guidão para conseguir chegar até lá; a curiosidade de descobrir se era possível ser derrubado pelo vento maior que o medo de que isso acontecesse. Mas é óbvio que não, é uma questão de física, todo mundo sabe, como era mesmo aquela fórmula, F=ma² ou algo assim, se eu tivesse levado as aulas de física mais a sério talvez eu me lembrasse, talvez eu pudesse calcular todas as variáveis, que nesse caso eram infinitas, incalculáveis, imensuráveis e, afinal de contas, quando há um acidente é sempre por causa daquela variável que ninguém considerou, então decidi continuar. E quando chegamos ao parque e, é claro, não havia ninguém mais ali, era provavelmente um dos piores dias para se ir ao parque, mas ao mesmo tempo o melhor, por causa da incrível velocidade das coisas que normalmente estão paradas, um daqueles dias em que as autoridades e as redes de televisão e os jornais publicam centenas de alertas e em que uns morrem nos desabamentos em algumas cidades distantes do norte onde a velocidade e a violência desses dias é ainda maior.

Então caminhamos contra a força que jogava nossos corpos em todas as direções, incrível que eles não fossem arrastados também pelo gramado, um campo aberto e as árvores cujos galhos espessos se dobravam como borracha. E você, como sempre, e porque talvez acredite que isso signifique alguma forma de transgressão das leis naturais, começou a examinar os troncos e a configuração dos galhos para buscar os melhores pontos de apoio para escalar uma delas. Porque o tempo todo, não importa onde estivesse, você realizava sempre esses mesmos gestos, tocando as superfícies, testando seu peso contra os muros, portões, procurando as mínimas deformações onde pudesse se agarrar, os objetos como obstáculos.

Mas nesse dia os galhos, especialmente, não ocupavam nenhum ponto preciso no espaço, mas formavam uma rede em constante movimento, tornando o deslocamento de x a y uma tarefa quase impossível. O trajeto de um salto, os pontos de partida e aterrissagem, o próprio peso do corpo e a força dos músculos completamente alterados pela força do vento. Então você tinha que se agarrar com toda a força à superfície, aos sulcos e protuberâncias dos galhos para se mover, explorando toda essa nova topografia com cuidado até que, talvez entediado com todas essas limitações, com um salto retornou ao seu habitat natural, o chão. Era o dia em que eu partiria para algum lugar, você me contou, e que talvez não voltasse, e agora me lembro bem, porque nunca mais ventou desse jeito, com tanta fúria, e me lembro ainda de como nos despedimos e andamos em direções opostas, mas porque ventava em todas as direções, estávamos os dois contra a ordem natural das coisas que era nesse dia a absoluta desordem.

Mas a segunda vez, quando retornou, me disse, foi completamente diferente. Às vezes eu penso que você provavelmente esteve em outro lugar, não naquele a que tínhamos ido e por isso teve uma experiência tão distinta. Como às vezes em que menciona essa ou aquela ocasião que eu presenciei, modificando ou criando um lugar, o que foi dito, quem estava lá, apenas porque talvez preferisse que tivesse acontecido desse jeito, assim, sem o menor escrúpulo. Na verdade pouco importa se a descoberta de que se pode pular entre os galhos, e voar de um ao outro e habitar o ar, essa que aconteceu depois da ventania, imagino que num dia ensolarado e parado, quando a natureza está muito mais gentil, se deu naquela mesma árvore, naquele lugar. Porque isso tudo se tornou uma outra coisa, uma coisa só, seu corpo, o ar, os galhos, todos esses elementos arrastados de uma vez só para uma relação inédita num evento específico. E quando você ultrapassou aquele momento em que nos defrontamos com a idéia de que tudo pode acontecer: de um lado, a interrupção de um movimento, a queda, o vazio, até mesmo a morte como o extremo dessa tendência, por outro, um pulo perfeito em sua simplicidade e espontaneidade, algo que conecta o corpo, o galho, o ar, um arco traçado entre esses elementos formando um outro plano, isso fez com que eu finalmente entendesse a sua busca.