Exposies

Lia Chaia - CONTRATEMPO

DE 23/07/2013 - 17/08/2013 A

 

O SOCIAL LIRICAMENTE COLOCADO

MIGUEL CHAIA (2013)

Em conversas sobre a sua exposição , quando Lia Chaia me contou que daria o título de “Contratempo” a ela, clarificou-me uma linha de pensamento para refletir sobre a mostra, uma linha que aproximasse trabalhos distintos: os contratempos são os resultados de uma 2ª natureza alcançada pela civilização na contemporaneidade.
1. Para realizar o vídeo “Aleph”, Lia Chaia procurou um pedaço árido da cidade de São Paulo que fosse muito parecido com outras metrópoles do mundo e um exemplo de um tipo insalubre de urbanização que extinguiu a vegetação. A vastidão urbana, que sobrepõe centro e periferia, foi sintetizada numa pequena esfera de vidro, produto da engenharia industrial.
2. Nessa atual exposição, “Contratempo”, a artista está às voltas com alguns temas que a perseguem continuamente: a natureza, o corpo, a cultura e civilização urbana.
3. Para dar conta dessa complexa trama de questões, ela faz uso de múltiplas práticas das artes visuais baseadas no desenho, na fotografia, no tridimensional, no vídeo e na instalação. Dessa vez, deixa de lado a performance. Verifica-se, assim, que a obra de Lia Chaia vem se realizando por meio de inúmeros entrecruzamentos de linguagem, de suportes e de preocupações. Afinal, como indagar o mundo contemporâneo sem acionar múltiplas percepções e recursos?
4. Frente a essa heterogeneidade, algumas amarrações imprimem unidade à obra de Lia Chaia. O primeiro aspecto que se sobressai de imediato, a uma primeira mirada, é a presença de uma identificável poética que perpassa todos os seus trabalhos. Pode-se dizer que a artista elabora uma poética que articula formas, ressalta a expressividade das matérias e destaca a representação de imagens.
5. Num segundo momento, para além da visualidade, Lia Chaia levanta questões que se escondem recatadamente por baixo de cada trabalho e imprimem aproximações entre suas obras. A artista defronta-se com as contingências da vida e preocupa-se com a natureza e a cultura não a partir de uma ótica interna a cada uma delas, mas sim tomando como perspectiva o impacto da civilização urbana sobre elas.
6. Essas preocupações estão quase sempre permeadas pelo humor, num tom baixo, exposto seja na forma, seja no assunto. Desde “Madrugada”, 2002, passando por “Da sorte dos que gozam”, 2002, “Folíngua”, 2003, até “Setamancos”, 2009, percebe-se um ar bem-humorado que imprime aos trabalhos um certo estranhamento, apontando para algo fora do lugar.
7. Lia Chaia indaga sobre os danos causados por um determinado tipo de sociedade, aquela que abandonou gradativamente a natureza original e criou uma outra natureza. Daí a centralidade do assunto corpo humano para a artista que, acompanhando Michel Foucault, entende o corpo como local de inscrição dos acontecimentos. Assim, nos seus trabalhos, homem, natureza, cultura e cidade se complementam, mas também entram em situações de tensões: o corpo destituído em “Madrugada”, 2002; o mar em desequilíbrio no vídeo “Desorientação”, 2001; o horizonte urbano cimentado em “Horizonte”, 2003; o hibrido vegetal-humano em “Folíngua”, 2003; a vegetação destruída pela urbanização em “Árvores carecas”, 2006; a metamorfose do corpo em “Escápula pena pelo”, 2011.
8. Diante dessas questões, a obra de Lia Chaia tem por base a ideia de processo, tornando relevante a consideração do fluxo do tempo. Uma de suas primeiras performances, “Rede”, 2003, já antecipava tal preocupação, pois ela tinha como referência Santo Agostinho, o filósofo do tempo. Nessa tendência, cabe lembrar também “Trepadeira”, 2003, com uma série de imagens fotográficas e desenhos que captam a natureza se alterando no transcorrer das quatro estações do ano. Outro trabalho paradigmático é o vídeo “Desenho corpo”, 2001, no qual risca seu corpo, durante 51 minutos, até acabar a carga da caneta.
9. A artista retém a passagem do tempo para retirar desse processo o significado inevitável das transformações das coisas e captar as marcas do domínio do homem sobre a natureza: veja-se a série “Fóssil”, fotografias de 2003, realizadas no México.
10. Nessa atual exposição, “Contratempo”, Lia Chaia reafirma sua preocupação com os sentidos adquiridos pelas transformações a que estão submetidas as vidas humana, animal e vegetal, frente aos contratempos suscitados no ambiente.
11. Os seus trabalhos fornecem pistas de que foi ultrapassado o estágio da natureza original e, agora, experimenta-se uma 2ª natureza. O ser humano e a civilização distanciaram-se gradativamente da natureza, processo este de afastamento, que gera contratempos.
12. Nessa exposição, a instalação “A queda“ recupera a imagem poética das folhas caídas e esparramadas pelo chão, mas efetivamente Lia Chaia nos faz defrontar com a mudança de situação e do estado da matéria. A representação se dá pela passagem das folhas verdes para folhas secas, desfalecidas, recortadas e costuradas umas às outras pelo ato civilizatório do tecer. A matéria orgânica da vegetação é substituída pela inerte materialidade do carpete cinza sintético. A instalação refere-se ao tombamento da árvore, considerada como símbolo do ser vivente que foi abatida, para tratar de uma 2ª natureza, isto é, de uma mutação da matéria, da substituição do natural pelo artificial.
13. Na série fotográfica “Quadrada“, as imagens das folhas perderam seus contornos naturais e orgânicos e ganharam formas retangulares, com predomínio de ângulos e linhas retas. A natureza continua viva, mas sob nova formatação, indicando o distanciamento da natureza original e a presença de uma outra natureza, bem mais próxima da forma gerada pela crescente racionalização. A lógica técnica se esparrama, torna-se planetária, sem limites – estamos frente a um novo princípio de criação da vida.
14. O vídeo “Aleph” retoma Jorge Luis Borges e faz a civilização urbana convergir para um único ponto, uma pequena e transparente esfera de vidro que passa a conter toda a Cosmópolis. Nesse trabalho, a cidade é colocada de cabeça para baixo. O som do vídeo remete para a alta tecnologia, como se fosse um mantra estranho à voz humana. Agora, o grande cenário da história é a urbis. Entretanto a esfera desliza em um braço de uma entidade feminina, recuperando aspectos mitológicos muitas vezes presentes na sua obra, como no vídeo “Minhocão”, 2006, e também na fotomontagem ”Presa predador”, 2008.
15. A obra “Cabos”, feita com desenho e fios sobre fotografia, apresenta um céu agora cinza, rasurado e cortado por fiações elétricas. Essa série possui uma luz soturna e enfatiza o vazio e a fragilidade do cenário urbano. Os condutores que seriam as veias para manter pulsante a cidade foram apagados, estão desativados e soltos no ar. Estamos frente a uma situação que indica estar ocorrendo danificações no ambiente urbano. Trabalhos anteriores da artista, como “Ruínas”, 2008, e “Fóssil”, 2005, já apontavam para os ciclos de decadência das civilizações. Por sua vez, as fiações de “Cabos“ deverão desaparecer para dar lugar a novas tecnologias. O tempo corre veloz, acelerando a realização da 2ª natureza.
16. Como consequência dessa condição urbana de frágil estruturação, a fiação elétrica se solta em pedaços ou sobras. Lia Chaia apropria-se desse material descartado e constrói o trabalho “Escrita“. Ele é composto por vários pedaços de cabos elétricos, grossos e resistentes, que sofreram torções e se encaixam em conjuntos que lembram garatujas ou pichações urbanas. Pequenos e complexos poemas visuais negros, criados pela articulação de diferentes unidades circulares. Esse trabalho se apresenta como desenhos tridimensionais, grafismos que cortam o ar. Ele também goza da mutabilidade, podendo ser manipulado, adquirindo novas formas à medida do seu manuseio. “Escrita“ lembra, de certa maneira, a série “Caixas de força”, 2009, na qual a artista também se utiliza de pedaços de fios dobrados para ocupar o espaço e compor uma caligrafia visual com ênfase no ritmo e na cor.
17. A série fotográfica de “Folha-leito” marca a passagem do tempo, simbolizada na sequência começo-meio-fim. A vida é um ciclo que se desenvolve persistentemente, como a chama de uma vela que se apaga, no dizer de William Shakespeare, em Macbeth. Esse trabalho trata da vitalidade que desaparece, da inevitável impermanência. O humano e o orgânico são transitórios. “Folha-leito” traz imagens de dezenas de folhas que sofreram a ação do tempo, colocadas lado a lado até tomar a forma de uma grande folha. A forma de cada unidade é reproduzida na forma maior, ou seja, cada unidade se vê repetida no geral. Assim, cada folha aparece como metáfora do indivíduo e o conjunto geral como metáfora da sociedade. Nesse trabalho, tanto pessoas quanto o coletivo cumprem um ciclo de vida e morte, de auge e decadência. Entretanto, ao final de um período de tempo, algumas folhas teimam em viver, insistem na persistência da vida.
18. Como se proteger frente às contingências e circunstâncias? Como assegurar a vida e o corpo? A civilização e a cultura engendram estratégias e equipamentos para promover a segurança das pessoas. Tais questões estão colocadas na instalação “Alambrado”, nos tridimensionais “Curvas de jardim“, no mural “Lanças” e no trabalho da fachada da Galeria Vermelho.
19. No caso de “Alambrado”, a origem da instalação encontra-se na tela de proteção utilizada largamente na cidade para proteger propriedades. A trama de arame e a dureza do metal transformam-se em uma rede maleável que agarra-se à parede ou se esparrama pelo chão. Um emaranhado de tela protetora, cuja função era excluir, impedir, separar. Entretanto, o poder de cerceamento é colocado em questão, pois a tela é frágil e possui partes rasgadas e rupturas, indicando tentativas para romper o cerco.
20. Os tridimensionais “Curvas de jardim” e a fachada são construídos por módulos de vergalhões de ferro dobrados, conhecidos como ‘Curvas de jardins’. Essas peças são colocadas lado a lado até formarem uma cerca baixa que restringe a mobilidade das pessoas. Paradoxalmente, a lógica técnica cria belas formas, abauladas, harmoniosas, que parecem ir contra o sentido de sua funcionalidade original. No mesmo sentido, situa-se “Lanças”, colagem sobre parede. A agressiva grade de ferro na forma de lanças pontiagudas utilizada como proteção de espaços agora se apresenta na sua virtualidade sem a eficiência proveniente da sua dura matéria. Além do mais, as lanças estão quebradas ou torcidas, indícios de que os espaços por elas protegidos já foram invadidos. O alerta é simbólico, o controle também passa pela mente, não apenas pela carne.
21. Com “Contratempo”, Lia Chaia continua a desenvolver sua reflexão sobre o urbano, assumindo uma estética de cunho político-existencial. Essa ótica já se deixa perceber claramente em trabalhos anteriores como a fotografia “Dissonâncias”, 2001/2005, a instalação “Setamancos”, 2009 e o vídeo ”Piscina - díptico”, 2013, que abordam respectivamente o confronto do corpo com as sinalizações e obrigatoriedades; a instabilidade da vida e as múltiplas indicações de direção; e, no terceiro trabalho, as persistentes buscas de saídas por parte da pessoa acuada nos labirintos existenciais ou sociais.
22. Nesse sentido, a artista se preocupa com uma forma difusa de biopolítica, instalada na contemporaneidade, quando o foco do poder se direciona para a população, o corpo e a saúde.
23. Em “Mulher Seiva” confluem as formas e imagens da folha, da cadeia de moléculas de DNA e do arabesco do símbolo do ‘Infinito’. Aí está resumido o corpo humano no seu elemento primordial e na (im)possibilidade de futura permanência. Essas fitas desenhadas e recortadas pela artista tanto podem se aglutinar, configurando a silhueta humana, quanto podem se esparramar em pequenos nichos pelo espaço, como se fossem nascedouros de corpos.
24. Anteriormente, com “Escápula pena pelo”, 2011, a artista tratou da mutação genética, por meio de imagens de partes do corpo humano que parecem ser de outro animal, com camadas de penas/penugens substituindo a pele humana.
25. Em 2008, Lia Chaia realizou uma série de fotos, “Amigos animais”, na qual se retrata tocando estátuas de animais construídas para decoração, entretenimentos ou publicidade. Nessas fotografias, a artista busca um relacionamento afetivo com as criaturas esculpidas, mas elas não respondem ao convite, não rompem com os limites da sua natureza artificial. Trata-se de uma 2ª espécie animal, criada pelo homem e não pela natureza, que produz estranhamentos na rede de sociabilidade. Lia Chaia não julga, apenas constata os indícios de uma 2ª natureza na humanidade.
26. A obra da artista é uma forma de pensamento sobre o homem que se afastou da natureza, onde originariamente buscava-se abrigo e, com o andamento do tempo e conquistas tecnológicas, passou a se proteger em suas invenções, principalmente na maior delas, a cidade.
27. No seu fazer artístico, Lia Chaia opera com paradoxos, sendo relevante aquele que reúne potência poética e visão trágica do mundo, no sentido nietzschiano. Assim é a instalação “Alambrado”: para além da visualidade do trabalho, com algumas partes cortadas, para reafirmar fragilidades do sistema, ela avisa: ninguém garante qualquer segurança na vida, nem mesmo após se conquistar uma 2ª natureza.
28. Rearticulando constantemente seus temas e priorizando novas pesquisas de linguagem, Lia Chaia, mesmo lançando um olhar crítico sobre as circunstâncias atuais, encontra poesia numa 2ª natureza.

Miguel Chaia, junho de 2013.