Exposies

Carla Zaccagnini - Pelas bordas

DE 26/02/2013 - 23/03/2013 A

 

Prefácio e epílogo

Carla Zaccagnini

Quando filmei Walking distance tinha ido à praia fazer outro filme. Queria gravar uma cena já vista e perdida, como muitas vezes me ocorre. Não sou de reações rápidas, prefiro a sinuca e as bochas ao ping-pong ou ao pebolim. Com freqüência perco o tempo (o tempo exato, quero dizer) olhando como passam as coisas que poderia registrar, especulando que título teria uma foto que enquanto isso não fiz ou que outras imagens ainda não vistas poderiam transformá-la em parte de uma série em que ganhasse sentido.

Saí com a câmera para procurar a repetição de uma imagem vista dias antes: uma gaivota (ou algum outro pássaro marinho que os amadores reduzimos a gaivotas) voando sem sair do lugar. Batia as asas com a maior eficiência que lhe seria possível e não se movia. Um equilíbrio perfeito entre a força do vento que chegava do mar e a capacidade de vôo da ave que ensaiava mover-se em sentido contrário, rumo à água. Perfeito. Evidente que algo assim não se repete, ao menos não num intervalo de poucos dias e diante da mesma testemunha, ao menos não dessa vez. Estive na praia por um tempo que pareceu longo com o vento (o vento sim era o mesmo), esperando com a câmera pronta como para ter certeza de que era impossível, como para me livrar do arrependimento por não ter feito o registro quando a situação me apareceu de presente.

Gravei minha caminhada de uma ponta a outra da praia para não perder a viagem. Talvez também porque caminhar esquenta. Ou por transladar à paisagem distante um hábito do verão: caminhar das pedras às pedras. Mas agora entendo que tem algo da relação entre o vento e a gaivota (concordemos que tenha sido uma gaivota) na relação entre o tamanho dos passos e o tamanho da praia, nessa expressão (emprestada) que qualifica uma distancia de caminhável e assim a define, e nos entendemos.

Não é por mostrar o mar que Walking distance serve aqui como prólogo, esta exposição não é sobre as águas salgadas. O que há é uma necessidade de medir o espaço com o corpo, de construir mapas em escala real onde as dimensões são sensíveis nos passos e no passar do tempo, de redefinir assim as distâncias e redimensionar o mundo. A água bem se presta para isso. Talvez por ser fluida, talvez por ser muita, talvez por escura e profunda. Talvez por ser sempre a mesma: uma incalculável massa nivelada, conectada por canais, braços, estreitos, riachos, e rios que correm sempre para o mar; para os oceanos onde se desenhavam monstros. E outro mapa-múndi vai sendo construído assim, pelas bordas, como se toma um prato de sopa quente, como se prepara ou saboreia a vingança.

O texto atascou neste ponto, claro. Que dizer depois de monstros e de vingança? Viria aqui a parte em que se descreve quadro a quadro, traçando nexos em ordem espacial ou cronológica, explicando motivos, confessando desejos, narrrando processos, guiando os olhares. Mas essa parte é um erro dos que não prefiro, aflige quem escreve e conforta quem lê, deixando pouco espaço para mal-entendidos e outros erros que gosto.
Olhava o texto estancado, a tela aberta, a mesa limpa (a não ser pela régua, que me ajuda a melhor imaginar espessuras que chegam por escrito); quando me pareceu ver de novo a gaivota. Não a mesma nem ao vento. Esta vez era uma formiga arrastando um mosquito inerte, provável vítima de eletrocutamento. A formiga avança com esforço, carregando um peso bem maior que o seu, subindo e descendo da régua, atravessando os números para um lado e outro da mesa. O mosquito desperta de vez em quando, com os solavancos dos desníveis da madeira, e bate as asas tentando levantar vôo. A formiga o segura até que, exausto, para quieto; e volta a arrastá-lo. Desta vez fui mais rápida, talvez porque já tivesse levado dez anos; talvez porque roubei o título pronto de um trabalho inconcluso: Às vezes, não saber que não podemos, é como saber que podemos.

Carla Zaccagnini, São Paulo, fevereiro de 2013