Exposies

DE 19/04/2005 - 14/05/2005 A

 

Moda e arte: um cruzamento possível de linguagens

Ricardo Oliveros

A exposição VIÉS trata das relações entre Arte e Moda, pensada pelo Grupo de Moda que há um ano discute as possibilidades e as aproximações entre as duas linguagens, com a devida consciência que não se trata de uma novidade.

A idéia da exposição pode ser resumida como a apresentação de uma arte que fala da moda e uma moda que comenta a arte. Se na década de 80, temos a moda oficialmente reconhecida, segundo Florence Müller, no seu texto Arte & Moda, como uma forma de expressão cultural, no Brasil não foi diferente. Helio Oiticica e os Parangolés, Lygia Clark, Leonilson e Leda Catunda, utilizaram vários códigos pertencentes ao mundo da moda.
Apesar do trânsito pelos códigos da moda, talvez exceção de Leonilson, a moda foi relegada a um segundo plano pela crítica. Fala-se de costura, bordados e principalmente, de corpo, como se assumir uma relação com moda, fosse algo menor.

VIÉS, ao contrário, é a afirmação positiva e crítica destas relações. Vale lembrar que quando a moda se relaciona com outras linguagens, especialmente a arte, é preciso muito mais do que uma imagem que vai ser consumida pela massa; essa relação tem de ser pensada a partir de um rompimento de códigos pertinentes a cada uma para que se estabeleça um outro lugar, que não resulta em mais um produto, e sim em uma obra. Investir nessas relações, ainda que de forma experimental, traz novas reflexões para ambos os campos de criação.

Para o filósofo Alain Renaud, que tem se destacado por suas análises das relações entre a cultura e a tecnologia, a noção de visibilidade cultural hoje está ligada aos processos de simulação interativa, que permitem antecipar o real físico, reproduzi-lo e manipulá-lo. Dentro dessas novas estruturas, aquela que o autor denomina "imagem espetáculo" é substituída pelo "simulacro interativo", o que gera uma transformação radical não apenas no conceito de representação, mas, sobretudo, na relação com o real.

Se analisarmos a mídia, a indústria cultural vem (re) tratando a sociedade como um espetáculo; ela tem autoridade para transformar eventos tão díspares como guerra ou vida cotidiana em simulacros de shows e games. Podemos afirmar que não estamos mais no terreno do Grande Irmão de George Orwel, em seu livro 1984, e sim imersos no universo descrito por Peter Weil no filme Truman Show (1998), que narra a história de um vendedor de seguros (Jim Carrey) que tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que é o astro, desde que nasceu, de um show de televisão dedicado a acompanhar todos os passos de sua existência.

Não é gratuito, aqui, substituir uma referência literária por uma cinematográfica. É claro que a indústria cultural não despreza a literatura, mas o cinema há muito tempo substituiu no imaginário popular, ou das massas, para usar uma expressão cara à indústria cultural, a referência cultural.

A moda, assim como o cinema, não só faz parte da sociedade do espetáculo como também a alimenta. Atualmente, a moda nunca esteve tão em voga, tanto que virou lugar-comum afirmar que a moda está na moda. Nesse caso, não deve ser entendida como roupa, assim como o cinema não deve ser considerado, em sua essência, como filme, mas como um sistema que afirma seu tempo, que é capaz de responder às velozes mudanças num mundo midiático e tecnologizado, ansioso pela próxima novidade. Poucas são as linguagens, incluso literatura, fotografia, pintura, que podem afirmar e realizar essa façanha com tanta precisão.

Os desfiles de moda, hoje representam um exemplo do cruzamento de linguagens, conceito caro à arte contemporânea. Vídeo, performance, cenário, música, tudo em um mesmo lugar para se criar a imagem da temporada.

Inspirada nessa possibilidade de cruzamentos de linguagens, de contaminação dos meios, a exposição Viés traz um número significativo de obras que propõem não uma tese, mas uma questão: como artistas e estilistas trabalham seus processos criativos para desenvolver suas obras, mediante as relações entre arte e moda.

Convido a todos a fazerem a sua leitura da exposição. Não temos uma tese a ser defendida, como muitos perguntam, se Moda é Arte. Temos questões e dúvidas, que queremos compartilhar com todos. A moda no Brasil é recente e a busca de uma identidade é um fato que vem sendo trabalhado paulatinamente pelos criadores de moda.

Exposições que buscam estas relações também estão acontecendo aqui e acolá. Isso é bom para ambos os lados. Discutir estas relações é discutir a cena contemporânea. Acreditamos que a Moda tem muito a contribuir para este debate, não mais na diagonal da postura crítica, mas no seu papel central.