Exposies

Rafael Assef / Sala dos Espelhos - Courtney Smith

DE 19/07/2005 - 13/08/2005 A

 

Entre dois tempos

Marta Bogéa

A aproximação de um território pela água ou pelo ar revela uma paisagem indistinta, apenas insinuada. Permite delinear lentamente um lugar. Pois uma paisagem vista à distância, apenas indica, sugere ou promete, o que pode vir a ser.

Milton Hatoum, em Relato de um certo oriente nos narra essa aproximação vinda da água. O território em aproximação apresenta-se como uma possibilidade, que à medida que alcançamos nos assegura identificar. Cortes, dobras, volumes, desenhos de uma paisagem agora reconhecida.

Em outro tempo, conhecer um local por percorrê-lo, nos leva a uma aproximação que nos apresenta o território por contato, e depois configura um desenho provável. A torre, mirante, local de vista da paisagem fica entre o muito distante e o muito próximo, local de certeza, que Michel de Certeau, em A invenção do cotidiano, opõe ao caminhar.

Avistar da torre e percorrer são experiências opostas, na primeira é possível alcançar todo o contorno e reconhecer perfis, a segunda, semelhante a um corpo-a-corpo amoroso, como sugere o autor, delineia o contorno pelo tato. Ao tentar afastamento para reconhecer o desenho perco a experiência da imersão irrefutavelmente.

DOIS GRITOS de Rafael Assef traz obras que à primeira vista parecem ser a promessa de algo distante, território ainda por se fazer reconhecer, delinear. Aparentemente conhecido, ainda que seja improvável reconhecer qualquer coisa a essa distância imaginada.

E aqui ocorre a captura. Uma escala subvertida que, na verdade, não nos traz objetos longínquos mas objetos muito próximos. Fatos reconhecíveis pelo tato, não pelo olho, mas que se apresentam ao olhar.

Paisagem de corpo, que num relance, aparentam paisagens cartografadas.

Entre mapas prometidos e superfícies reveladas, os nomes dos trabalhos nos trazem a encruzilhada proposta. Que olhar afinal trazem? Entre o muito perto e o ainda muito longe, entre o tátil e o olhar, a inversão de escala configurada nessas paisagens as constituem como enigmas.

Assef nos impede a certeza das torres, nos leva para o sobrevôo à distância, e num instante, subitamente, nos arremessa ao contato dos corpos propostos.

Não absolutamente conhecidos, tampouco desconhecidos, esses territórios se situam entre o longínquo e o excessivamente próximo, numa espécie de fronteira que reverbera entre espaços.

Por escalas improváveis e pelo tempo desprendido na descoberta dessas paisagens, elas trazem algo de estranhamente familiar que detêm o olhar.