Exposies

Edilaine Cunha - Aérea

DE 15/02/2006 - 11/03/2006 A

 

Aérea

Luisa Duarte

Uma caixa repleta de breu – o pó que os dançarinos usam nos pés para não escorregarem no palco – recebe o público na porta de entrada da Galeria Vermelho, que abriga a individual “Aérea” de Edilaine Cunha. Ali, logo no início, já está dada a senha de que a nossa presença é bem-vinda, necessária, e irá contaminar todo o espaço expositivo. Em um comentário publicado no blog que funcionou como lugar de discussão para esta exposição, a artista afirma que a inspiração para este trabalho veio de uma obra de Joseph Beuys, “La rivoluzione siamo noi”, de 1971, título/lema que acompanhava um auto-retrato emblemático do artista e sintetizava o caráter emancipatório do indivíduo criador. Não me parece arriscado afirmar que não só "Breu", o trabalho, mas a mostra como um todo possuí vínculos com a idéia que está na gênese do lema proferido pelo artista alemão. Assim, parte da tarefa que a exposição de Edilaine Cunha coloca é a de pensar quais revoluções nos cabem e são da ordem do possível no tempo de agora, 2006.

Logo que começamos a fazer o percurso da exposição, um outro trabalho, "Suave deslocamento do ar", nos assedia – ou nós o assediamos? Trata-se de pequenas ventuinhas, sensíveis à presença humana, embutidas em lugares estratégicos, de passagem. No momento em que a presença humana é detectada, um dispositivo aciona o movimento do ventilador. O trabalho tem o intuito de nos fazer lembrar da nossa presença, é o nosso corpo que o coloca em movimento. E note-se que este acionamento é feito numa voltagem onde a simplicidade dá o tom; somos chamados atenção por um leve sopro de ar. São desta natureza os deslocamentos propostos em Aérea. Ou seja, uma natureza na qual cada um de nós possui a sua importância e os deslocamentos são sutis.

“Para quebrar o silêncio” é outra obra/proposição que solicita nossa participação. Temos uma serigrafia em uma sacola plástica branca pequena, como as de supermercado. Em cada uma está impresso o texto/proposta Para quebrar o silêncio e duas imagens nas quais são mostrados dois passos; no primeiro, uma figura humana inflando um saco plástico, e no segundo, o saco sendo estourado. Trata-se de uma proposta simplória: infle um saco, estoure com uma das mãos e provoque um barulho. Atentemos que, mais uma vez, o poder de realizar uma transformação, mínima que seja, está em nossas mãos: a artista propõe que entremos no jogo e lembra que para quebrar o silêncio, aqui visto como sinônimo de apatia, pode bastar um gesto simples.

No díptico de fotografias Levitar, vê-se retratada a cena de um quarto com a cama desfeita e a própria artista de pijama grudada no teto. Numa das fotos, Cunha tem o rosto voltado para o teto e na outra virado para baixo. Esta vontade inexeqüível de alçar vôo em um espaço fechado já fora manifestada em um outro trabalho, “Experiências transcendentais de fácil resolução”, de 2003, que se constituía num encarte, dentro de uma revista, no qual era proposta a seguinte experiência: aprenda a voar em sua cadeira de escritório. Havia então a ilustração da proposição em três passos, nos quais a própria artista se aventurava na tentativa de alçar vôo a partir de uma cadeira. Assim como lá, aqui também Edilaine Cunha apresenta uma situação permeada por limitações, ao mesmo tempo em que faz de um gesto artístico muito simples uma espécie de passaporte para a abertura de novos vôos, de ida para um outro lugar . Indicando que a transcendência, essa ida para um outro lugar, pode se dar através de pequenos deslocamentos, e nos dois casos, com uma dose substancial de humor diante das próprias limitações.

Uma outra porta de leitura para este trabalho, “Levitar”, diz respeito ao diálogo com a arquitetura, tanto a moderna quanto a mais ordinária dos dias atuais. Esta porta foi aberta por Kiki Mazzucchelli, que também assina um texto sobre a presente exposição. Se a arquitetura de Niemeyer é um emblema marcante de um tempo em que ainda sobrevivia uma crença no projeto moderno no Brasil, as micro-arquiteturas das grandes cidades de hoje (quartos de apartamentos, escritórios) que Edilaine Cunha toma como ponto de partida para alguns de seus trabalhos, não deixam de ser símbolos da falência deste mesmo projeto moderno. Dado que são locais onde uma classe média vive acuada, diante de um espaço público tão abandonado quanto ameaçador. E mais uma vez, a diferença está no olhar da artista, ao não enxergar aí um cenário sem saída, mas sim encontrar brechas para possíveis vôos dentro deste mesmo cenário, percebendo que ali, no local mais próximo, da vida diária, existem possibilidades insuspeitas de transmutações diante da realidade vigente.

Ainda no caminho destas falhas da utopia moderna, estaria o fracasso de um ideal de sociabilidade. Tal discussão é levantada pelos trabalhos “Separadores, 1, 2, 3”. Trata-se de três estruturas tridimensionais em vidro, metal e rodízios. Uma placa de vidro de 10 mm na vertical apoiada num suporte de metal possui a função de separar dois corpos. Em um deles os corpos ficam de pé, e o separador pode se mover, no outro os corpos ficam sentados, e no terceiro deitados. Este trabalho remete a uma escultura anterior da artista, “Guichê”, de 2003, que simulava o espaço de troca burocrática, mas no qual um vidro vedava qualquer possibilidade de comunicação. Nesse trabalho, Edilaine Cunha abria a nossa percepção para uma incomunicabilidade que existe, com ou sem abertura no vidro. A troca burocrática é marcada justamente por um grau de automatismo em que o que e como se fala pouco importa. A diferença de “Separadores” está no fato de tocar em uma dificuldade de comunicação no que seria um espaço privado, e não público. A artista revela como este estar perto - seja sentado, deitado, ou caminhando junto – não significa necessariamente que esteja havendo uma troca. Em “Separadores” temos a oferta de um lugar onde duas pessoas podem estar bem próximas, numa suposta situação de intimidade, mas impedidas de se relacionar. Mais uma vez o vidro obstrui a comunicação. A artista não deixa de revelar o lado patético desta dificuldade de relacionamento, ao colocar os espectadores lado a lado, se olhando, mas sem poderem se tocar ou falar. O gesto artístico consiste em tornar visível esta redoma intangível que cada habitante de uma grande cidade do século XXI – tempos de extremo individualismo e diminuição do espaço público - acaba levando consigo, seja nas relações pessoais no espaço privado, seja a cada vez que sai à rua. Ainda na esteira do vínculo com a falência de um projeto moderno, é possível pensar o quanto certas obras de Edilaine Cunha, incluindo aí “Separadores” e “Guichê”, apesar de soarem em uma tonalidade inteiramente contemporânea, possuem um rigor formal, uma assepsia, que remetem a forma moderna. E o toque de ironia estaria então em fazer uso de uma formalidade de fisionomia moderna para falar justamente de algo que não deu certo no projeto sustentado pelo ideário vinculado a esta formalidade.

A questão das falhas, das possibilidades de erros, é também o foco da série de cinco fotografias “Popstars_erros”, único trabalho desta exposição que não data de 2005, mas sim de 2003. Nesta série a artista se apropria de erros de transmissão de dados no computador no momento de capturar o que seriam retratos de cantoras de música pop. Devido à falha da tecnologia, o que vemos é somente um emaranhado de pixels que tornam os rostos das pop-stars (Madonna, Courtney Love, Alanis Morrisette, entre outras) irreconhecíveis. Aqui a técnica (prima-irmã de um ideário moderno vinculado à crença no progresso), e sua implícita promessa de felicidade, de melhoria da vida das pessoas, surge em seu momento de fracasso.

O trabalho que ocupa o maior espaço da mostra, “Preenchendo vazios”, é formado por dezenas de bolsas plásticas cheias de ar. Ao longo do período da exposição o espaço será ocupado por uma quantidade cada vez maior desses vazios embalados. São muitas as variáveis postas em jogo neste trabalho, primeiro ele contém uma dose incontornável de imprevisibilidade: como as pessoas irão se relacionar com ele é uma incógnita, se vão estourar os vazios, levar consigo, espalhar ainda mais pela galeria, etc. Para além desta vertente relacional, deve-se atentar para o que significa o ato de preencher vazios, num gesto através do qual ele torna-se protagonista. Dentro do campo da arte, a escultura nos ensinou o precioso valor desta matéria invisível, é da atenção dada a ela que surge o visível, ou seja, o espaço preenchido. Mas acredito que no caso do trabalho de Edilaine Cunha interesse, sobretudo, pensar no vazio como potência em estado latente à espera de ser ativada, pensando esta atitude num sentido lato, até mesmo com reverberações políticas – nos novos termos em que esta palavra se coloca em 2006.

Edilaine Cunha vem trabalhando de forma persistente com as idéias de vazio, falta e preenchimento de espaços, pela arte e por nós mesmos. É característico de muitas obras da artista lidar com elementos tradicionais da arte por assim dizer, e a partir daí derivar para questões amplas que tocam a vida em sociedade nos dias de hoje. Ao embalar o vazio na obra em questão, a artista busca mostrar que existem espaços que talvez não enxerguemos e que podem ainda ser ocupados, como se estivessem a nossa espera. Onde parece não haver saída, em um mundo brutal onde mecanismos de controle cada vez mais perversos inibem ou mesmo impedem o exercício de uma vitalidade no sentido amplo, podem sim haver brechas insuspeitas para o exercício de uma vida ativa, capacitando cada um para o exercício de emancipação que leve a transformações e atos de resistência. Este caminho de pensamento, entre outras coisas, parece querer nos dizer o seguinte: diante do vazio da cena política num sentido macro, do fim dos sonhos utópicos de transformação da realidade, um novo campo de atuação ganha lugar, no qual um âmbito mais intimista de proposições entra em cena. Aqui ganham força a dimensão do possível, o momento presente, a experiência cotidiana e a potência das pequenas narrativas. Tais aspectos, por sua vez, imprimem um caráter micro-político a este tipo de intervenção.

Assim como somos recebidos pelo “Breu” logo na entrada da galeria e contaminamos o espaço interno com a nossa presença, o mesmo ocorre quando saímos dela. Assim, não se torna difícil pensar que levamos conosco a senha ali dada, de que a nossa presença pode significar uma diferença, no que isso comporta de responsabilidades e possibilidades no mundo em que vivemos. E a medida desta atuação tem na obra de Edilaine Cunha um parâmetro, que parece indicar uma atuação não mais heróica, mas na qual ainda sim possamos alterar percepções e promover descolamentos, dissonâncias, notando que as pequenas coisas, hoje, parecem estar falando mais alto.

Rio de Janeiro, janeiro de 2006.