Exposies

Coletiva - Looks conceptual ou Como confundi um Carl André com uma pilha de tijolos

DE 18/01/2008 - 16/02/2008 A

 

LOOKS CONCEPTUAL OU COMO CONFUNDI UM CARL ANDRE COM UMA PILHA DE TIJOLOS

Kiki Mazzucchelli

Entrevista com Lucienne Roberts do estúdio de design holandês Experimental Jetset – 2005

“Não vemos o design gráfico como arte, mas vemos a arte como uma forma de design. Embora seja difícil definir a arte, não é difícil definir seu contexto: há uma infra-estrutura clara de espaços expositivos, galerias, museus, revistas de arte, editoras de livros de arte, a história da arte, a teoria, etc. A arte pode ser vista como a produção de objetos, conceitos e atividades que funcionam dentro desta infra-estrutura específica. Para nós, esta produção pode certamente ser vista como uma forma específica de design. ”

A relação incestuosa entre a arte e o design não é apenas um tema vasto, mas algo que tem sido discutido pelo menos desde o início do modernismo; dos textos do artista e designer britânico William Morris, aos vários movimentos da vanguarda do século 20, como, o Construtivismo soviético, o De Stijl holandês e a Bauhaus na Alemanha. O design como disciplina independente é o resultado do processo de industrialização e está associado, em sua origem, à idéias de produção em massa a serviço da democratização, conferindo um valor estético ao trabalho desqualificado do operário e transformando o objeto cotidiano em obra de arte. Possui, tradicionalmente, um caráter extremamente utópico, ao sugerir que trazendo a arte para a vida seria possível subverter ou modificar estruturas sociais estanques proporcionando uma maior igualdade.

No princípio, esta exposição pretendia investigar como alguns artistas contemporâneos se apropriam das estratégias e modos de produção do design para realizar projetos que utilizam seu potencial transformador, interferindo concretamente na vida pública. Contudo, o que emerge dos trabalhos dos artistas que integram esta pesquisa é uma série de questões que reflete com muito mais precisão a complexidade das relações entre a arte e o design hoje. Observou-se, por exemplo, um interesse muito grande pelo papel do design no cotidiano privado, o que talvez possa ser sintomático da crescente privatização da esfera pública, ou pelo não funcional, que de uma certa maneira denota uma descrença em relação aos ideais utópicos do racionalismo moderno. Trata-se, portanto, de uma exposição que repensa sua hipótese original a partir dos próprios trabalhos dos artistas, identificando na produção alguns eixos temáticos que evidenciam diferentes aproximações e cruzamentos entre a arte e o design.

Permeados pela idéia do fetiche da mercadoria, os trabalhos de Marcelo Cidade, Superflex e Los Super Elegantes exploram, de diferentes maneiras, como o valor é conferido aos produtos. Em Transeconomia Real, anéis construídos com cédulas de dinheiro, Cidade condensa produto e valor em um só objeto, assim como os rappers que ostentam o ouro em suas jóias. O Superflex, por sua vez, traz a questão da pirataria em Supercopy/Logo, imprimindo o título do trabalho sobre camisas La Coste falsificadas. A peça criada pela dupla Los Super Elegantes é uma narrativa sobre uma decoradora de interiores que revela como os critérios de atribuição de valor podem ser absurdos. Porém, uma vez que estes trabalhos são trazidos para dentro do circuito da arte, em que o valor é atribuído segundo os critérios deste mercado específico, a idéia do fetiche se torna ainda mais complexa.

Tanto o vídeo realizado em parceria por Carla Zaccagnini e Nicolás Robbio quanto os trabalhos de Marcius Galan e de Rodrigo Matheus colocam em cheque a noção de design como produto de uma racionalidade pura. Os movimentos coreografados de Zaccagnini e Robbio, que realizam um mesmo desenho em sincronia, sugerem uma idéia de padronização, com uma precisão quase mecânica que é desmentida pelo resultado final, onde o que transparece é a diferença produzida pela subjetividade. O design é produto do homem e, nesse sentido poder-se-ia dizer que é o oposto da natureza. Em Mata e Banco de Jardim, Galan complica esta afirmação, e manipula peças de mobiliário, destituindo-as de sua função original e aproximando-as da natureza. Em seus trabalhos, Matheus geralmente se apropria de uma estética corporativa. Aqui, ele apresenta Ultra Lamps, um conjunto de lâmpadas fluorescentes que, além de não servir a nenhum propósito, sugerem um desperdício de energia.

É interessante notar que a função do design é mantida apenas em dois trabalhos que integram a mostra. Em Fogo Amigo (Versão portátil), Cidade cria mochilas especialmente desenhadas para acomodar bloqueadores de celulares, permitindo que o usuário se misture discretamente em qualquer local público, interrompendo o fluxo da comunicação. Os Assentos desenvolvidos por Carla Zaccagnini em colaboração com a arquiteta Keila Costa são objetos funcionais criados especialmente para instituições que abrigam exposições temporárias, pontuando uma leitura alternativa destas exposicões.

De certa maneira, os ambientes domésticos fictícios de João Loureiro e Rômmulo Conceição tocam em questões semelhantes. A Sala de Loureiro, com seu mobiliário fixo e interligado, nos faz pensar em como as relações sociais podem ser determinadas pelo design de interiores , ou seja, pela disposição dos elementos em um ambiente que é projetado para um determinado fim. Em Sala-Banheiro-Serviço, Conceição cria uma instalação em que sobrepõe elementos domésticos associados a determinados espaços da casa de acordo com sua função em uma única peça. O acúmulo destes índices de áreas específicas da casa gera um ambiente surreal onde as regras do comportamento definidas pelo uso do espaço não se aplicam mais.

A questão da representação está presente nos trabalhos de Detanico + Lain, Maurício Ianês e Nicolás Robbio. Detanico + Lain nos oferecem as ferramentas necessárias para decifrar seus sistemas de escrita, ao mesmo tempo nos fazendo perceber com mais intensidade que a linguagem é uma representação arbitrária. A representação é, de certo modo, uma forma de simplificar o objeto original. Em seu trabalho, Ianês frequentemente põe em dúvida a capacidade de se representar algo. Suas bandeiras escuras de paetês não representam nenhuma nação específica, mas apontam para a idéia de uma riqueza conquistada através de histórias de exploração, guerra e sofrimento. Robbio produz desenhos que são quase ilustrações de manuais de instruções, reduzindo a informação da linha a um mínimo necessário para ser universalmente decodificada e simultaneamente introduzindo elementos que interrompem e complicam o que aparentemente seria uma seqüência lógica e facilmente legível.

A linguagem aparece ainda nos trabalhos de Stefan Brüggemann e Edilaine Cunha. Com uma obra que explora o legado da arte conceitual, particularmente da década de 60 nos Estados Unidos, Brüggemann utiliza uma linguagem tautológica em seus textos em vinil adesivo que funcionam como trabalhos independentes no espaço expositivo. Em Número Um, Cunha se apropria da linguagem das campanhas publicitárias, utilizando-a contra as imagens de um estilo de vida de sucesso e bem-estar típicas da publicidade.

Finalmente, discutindo as novas formas de design que surgiram nas últimas décadas com a popularização das novas tecnologias, as duplas Goldin + Senneby e Leandro Lima e Gisela Motta conferem um corpo físico a objetos que existem digitalmente. Em Objects of Virtual Desire, Goldin + Senneby reproduzem objetos criados no site de relacionamentos Second Life, que movimenta uma média de 400.000 dólares por dia, e realizam entrevistas com os avatares que criaram ou possuem estes objetos. Trata-se de uma nova economia não somente monetária, mas de desejos e experiências. Lima e Motta extraíram arquivos digitais de alguns dos videogames de combate mais populares entre os usuários de “lan houses” no mundo todo para construir protótipos físicos de armas de fogo em seu tamanho real. Assim, devolvem o peso e a realidade a esses objetos, e criam um inventário das armas de diferentes modelos que são associadas a determinados conflitos e nações.