Exposies

Marilá Dardot - Ficções

DE 02/09/2008 - 27/09/2008 A

 

PRÓLOGO

Marilá Dardot (2012)

Ficções é o nome de um livro de Jorge Luis Borges. Pensei que poderia nomear também minha exposição. Afinal, Borges me acompanha desde o começo de tudo isso. E tudo isso sempre teve a ver com ficção. Faz-de-conta. Invencionice. Delírio. Utopia. Arte. Mentira mesmo.
Nada do que conto aqui veio nesta ordem nem neste estado em que vou enumerar. Nada disso veio em ordem, na verdade. Todo processo é correnteza, nunca sabemos direito para onde vai nos levar. No começo é intuição. E no final é ficção pura.

Comecemos então pela capa. Ou melhor, pela frente: a fachada da galeria, que já foi tanta coisa. E se a fachada se tranformasse em um livro gigante, Um grande livro, Vermelho? A gente se sentiria pequenininho, mas perceberia que tem uma porta, que dá pra entrar. E, como Alice, entraríamos.

Lá dentro encontraríamos imagens de um livro aberto. Ele seria composto por dois livros iguais e diferentes. Meio grande, mas é que estaríamos mesmo pequenos. Misturaria duas línguas: Ulyisses. Esse livro eu inventaria.

Ao fundo poderíamos ver umas letras gigantes. Pareceriam surgir do chão. Poderíamos andar entre elas. Seria como se de repente as coisas e paisagens pudessem falar: o piso, o céu, o vento, as cidades, as casas, as paredes. Porque as palavras estão por toda parte: entre nós e o outro, e o fora, entre nós e o mundo.

Voltaríamos ao nosso tamanho ao percebermos duas pessoas jogando palavras cruzadas. Mas elas estariam invisíveis, só veríamos suas mãos. Como se fossem nossas mãos. O estranho é que as palavras também estariam invisíveis, mas as mãos jogariam como se fosse um jogo comum. Seria um jogo sem sentido? Nunca se sabe ao certo o que norteia O movimento das Ilhas.

Então ouviríamos um barulho estranho. As mesmas mãos (sim, pareceriam as mesmas) estariam usando máquinas para escrever uma longa Correspondência. Como se não houvesse e-mail! Ou como se aquilo mesmo que escreviam fosse e-mail. Ou como se o tempo fosse outro. Como se fôssemos outros nós mesmos.

Uma vez eu estava no México. Tinha acabado de ver letras gigantes nascendo do concreto. Notei um sebo que se chamava El Laberinto – Librería de las Utopías Posibles. Pensei comigo: e se fosse possível encontrá-las, essas tais utopias possíveis? E se elas, juntas, formassem um novo labirinto, por onde nos perderíamos, minúsculos, entre todas aquelas tentativas de conhecer o mundo, de traçar seus mapas, suas topografias, suas histórias, de entendê-los e de mudá-los?

E se naquela mesma sala, a escrivã iniciasse um imenso arquivo de frases Com palavras de palavras por palavras, palabras?

E se isso tudo fosse uma exposição, e ela se chamasse Ficções, como o livro de Borges?

Marilá Dardot
São Paulo, inverno de 2008

* frase no original, tirada do Ulisses: In words of words for words, palabras.