Exposies

Coletiva - Silêncio!

DE 25/11/2008 - 17/01/2009 A

 

Silêncio

AUDREEY ILLOUZ

“O silêncio não existe.
Vá a uma câmara anecóica e escute o barulho do seu
sistema nervoso escute a circulação do seu sangue.”
John Cage

A exposição Silêncio! tem como ponto de partida a música De palavra em Palavra de Caetano Veloso, que aparece em um de seus álbuns mais experimentais, Araçá Azul, de 1972. Composta na época do retorno do artista do exílio, em Londres, a letra da canção, dedicada a Augusto de Campos, é uma referência explícita à poesia concreta. Tipografias, jogos de palavras, palíndromos, espelhos fônicos e outras experimentações visuais e sonoras operam na música que atinge seu paroxismo em um grito. Este grito, emitido durante a época da ditadura, brinca com a contradição entre o discurso (silêncio) e o ato (o grito).

A exposição utiliza a noção do grito e seu estatuto na linguagem, um som que ainda não são palavras articuladas: de uma expressão primal a uma dramaturgia da fala. Sem dúvida, a mais célebre representação pictórica do grito surge na obra de Edvard Munch que remete o observador a um estado de estupefação e torpor silencioso. Vemos então se perfilar o peso da imagem onde o som está ausente.

Por meio do grito concebido como vetor entre corpo e linguagem, a idéia da exposição é abordar formas de resistência ligadas a experiências físicas, performativas e lingüísticas como, por exemplo, o ato de gritar a palavra silêncio. A relação da palavra com a imagem pode então ser abordada sob outro ângulo.

Nesse sentido, são várias as abordagens envolvidas no projeto. Há a abordagem física, inspirada no “corpo xilofrênico” (contração das palavras xilofone e esquizofrênico) de Antonin Artaud, que aponta para a idéia de um “vai e vem entre oralidade e escrita; entre grafia e sonoridade; entre estigmata corpóreo e traçado da voz” . Essa abordagem física aparece na obra Resonating Surfaces (2005) de Manon de Boer, elemento chave na elaboração do conceito de Silêncio!, ausente, entretanto, na exposição. A obra apresenta um retrato da psicanalista brasileira Suely Rolnik que, após ter sido presa, fugiu da ditadura militar. A questão aqui é o que pode ser encapsulado no fundo da fala e ressurgir na voz. O filme evoca a vibração de uma energia vital como resistência ao poder político. Em Silêncio!, essa abordagem física entende o corpo como superfície sensível onde o canto cede progressivamente lugar ao grito primal em Score nº1 for Three Moments of Origin (First Cycle) de Joseph Dadoune, passando pelos medos primais que fazem surgir a instalação MND (2008) de Maurício Ianês, ou ainda, na cena voyeurística onde o visitante se vê potencialmente cúmplice de um incidente ficcional como em Happy Scream (2006) de Laurent Fiévet

Então, experiências sonoras ou mudas representam apenas dois lados de uma mesma moeda: do corpo em tensão com elementos da natureza em Donnant (2006) de Anne Durez, ao corpo preso em um exercício auto-centrado de respiração de um ensaio de teatro na obra Situation 3 (2005).de Manuela Marques.

Tais experiências mudas nos levam a outras puramente lingüísticas: da prova do silêncio e de sua tentativa de captação lingüística em Paisagem sob Neblina (2008) de Marilá Dardot, à falha na comunicação em Switch (1998) de Manon de Boer onde superfície da linguagem e sentido se confrontam.

Do sentido escondido, nos movemos para o sentido proibido – tanto no sentido literal como no figurado – na série Somebody Says… (2008) de Nathalie Brevet e Hughes Rochette. Outros jogos de palavras e reinterpretações lingüísticas aparecem na animação White Noise (2006) de Angela Detanico e Rafael Lain. A expressão White Noise (ruído branco), em analogia a espectro luminoso, faz colidir dois registros de linguagem, um sonoro e outro visual. Outra influência da poesia concreta aparece em Des-pe-nha-dei-ro (2008), um poema sonoro de Maurício Ianês que não deixa de evocar o corpo-xilofrênico.

Cada obra mencionada acima é apresentada em eco a outros trabalhos dos artistas concebidos na maior parte especificamente no contexto desta exposição. À imagem do poema “verbi-voco-visual” de Caetano Veloso, esta exposição se constrói sobre jogos de repetição, retomadas, reinterpretações e efeitos de espelhamento talvez deformantes...o grito pode se apagar em proveito de um dado ainda desconhecido... tentativas antropofágicas não circunscritas geograficamente.