Exposies

Marilá Dardot - Introdução ao Terceiro Mundo

DE 26/07/2011 - 27/08/2011 A

 

Introdução ao Terceiro Mundo de Marilá Dardot

Luisa Duarte (2011)

O Terceiro Mundo de Marilá Dardot é sinônimo de liberdade. Trata-se de um terceiro que não é fruto da dialética clássica; um terceiro que não é mera síntese, mas sim instauração de uma diferença. A artista usa, de propósito, a expressão “Terceiro Mundo” sabendo das tensões que ela convoca: seu uso, durante a Guerra Fria, para designar países que seriam economicamente ‘subdesenvolvidos’ e geopoliticamente não alinhados. Com o fim da polarização, estes termos caíram em desuso, substituídos por ‘países desenvolvidos’, ‘países em desenvolvimento’, ou ainda ‘emergentes’ e ‘países subdesenvolvidos’. Todas essas expressões trazem consigo um pensamento hegemônico que não interessa à Dardot. Ao contrário dessa lógica hierárquica, há aqui uma escolha por pensar o número 1 como o de um singular, o 2 como o embate entre duas experiências (indivíduos, olhares, mundos, culturas) e o 3 como o acontecimento que surge desse encontro.
Assim, o embate entre dois elementos não é uma competição, tampouco serve para comparação, mas sim um encontro, ou desencontro, que gera um terceiro – o diverso do já dado, a resultante de confluências, cruzamentos, associações. Dardot se apropria de trabalhos de outros artistas e escritores (Cildo Meireles, Fabio Morais, Cinthia Marcelle, Sara Ramo, Italo Calvino, Julio Cortázar, entre outros) e, a partir deles, deflagra uma nova criação. Nesse ato, dilui a noção de obra acabada e afirma aquela do trabalho em processo, conjunto, em pedaços, fruto justamente dos encontros, e não de uma autoria fechada, autônoma.
A mesma Dardot certa vez afirmou: “eu nunca consegui perceber nenhum de meus trabalhos como ‘obra de arte’, só os dos outros. Os meus, eu vejo como canteiro de obras mesmo, construção”. Assim, a exposição Introdução ao Terceiro Mundo não deixa de ser uma síntese desse modo de pensar a própria prática de trabalho enunciada pela artista.
Na mostra, a instauração desse terceiro mundo começa com a delimitação de um território – foi construída uma nova sala dentro da sala de exposições tradicional. Dentro dela encontra-se uma espécie de pequeno museu. Inúmeras vitrines com reproduções de ´obras de arte’, seguidas de verbetes, criam um novo olhar, adicionam um outro sentido, ou somente embaralham o significado primeiro diante daquilo que foi apropriado pela artista.
Esse pequeno museu se organiza por categorias: água, tempo, paisagem, arquitetura, mapa, etc. Tal como uma enciclopédia. O tempo, por exemplo, aparece reinventado por meio do diálogo com obras de três artistas, Lais Myrrha, Rivane Neuenschwander e ela mesma, Marilá Dardot. A literatura, disciplina fundamental na vida e no trabalho da artista, funde-se com a dos chamados ´artistas visuais’. Uma passagem sobre a criação de um novo tipo de relógio presente no livro Histórias de cronópios e de famas, de Julio Cortázar, é o ponto de partida para pequenos textos, redigidos pela própria Dardot, e ali se mesclam as letras de Cortazar, as da artista, a imagem do trabalho, e o sentido impregnado no pensamento de cada um.
Vejamos o caso em que a artista usa o seu trabalho A meia-noite é também o meio-dia (2004) como mote deflagrador. Vê-se a imagem da obra, um relógio instalado numa casa de campo, e a partir dela temos o trabalho Introdução ao Terceiro Mundo (Relógio 4). O que vemos é uma imagem da obra em um contexto específico e, abaixo, um verbete sobre a mesma que mescla as palavras de Dardot e Cortázar, doando mais uma possível interpretação para a manifestação que deflagrou o processo. Diz o verbete:

“RELÓGIOS Uma fama tinha um relógio de parede e dava-lhe corda todas as semanas COM GRANDE CUIDADO. Passou um cronópio e ao vê-lo pôs-se a rir, foi pra casa e inventou o relógio para tempos mais lentos, ideal para bibliotecas e casas de campo. O relógio demora longas 24 horas para dar uma volta completa, coincidindo com o horário oficial apenas ao meio-dia, de maneira que basta o cronópio usá-lo para aproveitar melhor o tempo, terminar aquele livro ou estender o feriado no sítio.”

As interações aí são algumas e podem nos ajudar a pensar não só os procedimentos empregados nessa exposição, mas na estrutura da poética da artista como um todo. A meia-noite é também o meio-dia se constitui em um relógio dupla face como estes encontrados em estações de trem ou instituições. Ou seja, lugares onde o tempo cronológico, aquele da lógica produtiva, mercantil, concorrencial, marca do capitalismo, está sempre dando as regras e ditando nossos passos, diariamente, rumo a uma corrida desenfreada cujo norte, muitas vezes, desconhecemos.
Sua aparência é a de mais um relógio como outro qualquer, mas o seu mecanismo de funcionamento foi alterado. Aqui, para cada segundo passado em um relógio ‘normal’, levam-se dois segundos para que os ponteiros caminhem o mesmo trajeto. Ou seja, o tempo é desacelerado. Ao escolher uma imagem do trabalho instalado na casa de campo de sua colecionadora, Dardot evoca esse tempo distinto do tempo da cidade, dos centros urbanos céleres.
Se pensamos o Terceiro Mundo como um lugar imaginário, tal como as cidades inventadas por Italo Calvino em seu Cidades invisíveis, podemos crer que existem ali diversas formas de se relacionar com o tempo: um tempo suspenso, às vezes um tempo elástico, às vezes aquele desacelerado. Todas as obras eleitas pela artista para compor esse terceiro mundo respiram a mesma sutileza política que habita os seus próprios trabalhos. A artista erige, em toda sua trajetória, uma constante crítica ao modo de vida imposto pelo tempo do capital, sem por isso ser literal ou panfletária.
Um outro trecho desse grande mapa que forma a experiência do Terceiro Mundo ecoa esse pensamento do tempo. Quando nos é apresentado o que seria a Viagem nesse outro lugar, o que temos é um desenho que um percurso cuja ênfase está dada no caminho, nos pequenos detalhes, percurso que não traz nem início, nem fim, sendo a própria travessia o momento mais importante. No verbete que o acompanha talvez tenhamos uma síntese preciosa não só sobre a temporalidade, mas de um modo mais geral – utópico? - de se vivenciar o mundo em que vivemos. Afinal, não sejamos ingênuos, esse Terceiro Mundo não deixa de ser um reflexo de inquietações diante do mundo “real”, sendo assim um outro lugar, criado, inventado.
Lemos o seguinte trecho:

“VIAGEM Para os autonautas do Terceiro Mundo, a estrada deixa de ser um percurso para tornar-se o destino da viagem; seu propósito de velocidade transforma-se em lentidão deliberada. A bordo de um carro-casa, esses viajantes transformam em expedição o que seria mero trajeto de poucas horas, experimentando um mês fora do tempo. Sem sair da autopista, exploram suas margens; observam e vivem cada kilômetro. Buscam o outro caminho, que no entanto é o mesmo. (JC, CD, MD)”.

Nele está contida não só uma sinalização para um tempo mais lento, mas também uma abertura para aquilo que, na pressa recorrente, na ânsia por alcançar um ponto de chegada (que nunca se apresenta de fato), perdemos de vista. Saber que o que importa é a travessia, nem o inicio, nem o fim, se dar o tempo de viver o presente. Ato que parece óbvio, mas se constitui em um dos maiores desafios postos ao homem. Estamos, quase sempre, no passado ou no futuro. Fazer da estrada o destino da viagem é valorar cada dia, um dia como outro qualquer, em algo precioso. Significa, no limite, dizer não para a lógica que nos faz correr diariamente rumo a um ponto de chegada que é, no mais das vezes, signo de alienação. Note que os autonautas, personagens do verbete Viagem, buscam um outro caminho, mas que, no entanto, é o mesmo. Ou seja, não se trata de sair dessa vida que nos é dada, mas realizar esse mesmo percurso de maneira distinta. Não se trata de dizer não, mas um sim que inclui uma sutil e decisiva inflexão.
O modo de ser dos trabalhos que compõem esse outro lugar criado pela artista pede que cada um se disponha a um olhar mais demorado e paciente. Dardot chama o público para uma posição ativa diante de cada uma de suas associações, deixando lacunas que devem ser preenchidas de acordo com o manancial que cada um traz consigo. E, quem sabe, a partir dali deflagrar novas e insuspeitadas relações.
Toda a proposição de Introdução ao terceiro mundo recorda um belo aforismo:

“Para todo escritor é sempre uma surpresa o fato de que o livro tenha uma vida própria, quando se desprende dele; é como se parte de um inseto se destacasse e tomasse um caminho próprio. Talvez ele se esqueça do livro quase totalmente, talvez ele se eleve acima das opiniões que nele registrou, talvez até não o compreenda mais, e tendo perdido as asas que voava ao concebê-lo: enquanto isso o livro busca os seus leitores, inflama vidas, alegra, assusta, engendra novas obras, torna-se a alma de projetos e ações – em suma: vive como um ser dotado de espírito e alma, contudo não é humano. A sorte maior será do autor que, na velhice, puder dizer que tudo o que nele eram pensamentos e sentimentos fecundantes, animadores, edificantes, esclarecedores, continua a viver em seus escritos, e que ele próprio já não representa senão a cinza, enquanto o fogo se salvou e em toda parte é levado adiante. Se considerarmos que toda ação de um homem, não apenas um livro, de alguma maneira vai ocasionar outras ações, decisões e pensamentos, que tudo o que ocorre se liga indissoluvelmente ao que vai ocorrer, perceberemos a verdadeira imortalidade, que é a do movimento: o que uma vez se moveu está encerrado e eternizado na cadeia total do que existe, como um inseto no âmbar.”

O Terceiro Mundo de Dardot é uma metáfora da possibilidade de transformação, de uma reinvenção diante de categorias já dadas, tantas vezes impostas. Um outro mundo deflagrado a partir do contato com manifestações de outros artistas, ou seja, a sinalização de que esse contato pode engendrar novas obras, inflamar vidas, mudar o curso de um olhar. Recordo-me aqui de um depoimento da própria artista que reflete essa potência encontrada em seu trabalho:

“Pessoalmente, acho que alguma vontade de mudança é o que moveu, move e sempre moverá o artista em qualquer época, acho que a arte nasce e se alimenta justamente do incômodo. Pensar na arte agora é pensar também em como ela reflete o espírito de uma época, e vivemos, acho, em uma época de imenso individualismo e de descrença nas grandes mudanças em escala coletiva. E acho que esta é uma situação também muito incômoda (…). Tento com meu trabalho reagir aos meus incômodos, e percebo algumas tentativas de retomar aquele espírito coletivo – talvez com mais sutilezas e com menos certezas, tenho mais dúvidas, mais perguntas que afirmações, proponho pequenas subversões e heterotopias. Enfim, continuamos tentando mudar o mundo. Mesmo que seja um pouquinho só.”

Marilá Dardot nos lembra que a chance de construirmos um Terceiro Mundo hoje, ou seja, uma diferença, tem início no incômodo diante do mundo tal como nos é dado. Como resposta, nem o idealismo, as mudanças heróicas e utópicas, tampouco a complacência de fundo cínico, mas sim as heterotopias, espécies de utopias possíveis. Ao entrarmos no seu Terceiro Mundo, somos lembrados de que não só o artista pode ser sujeito de uma mudança, mas essa possibilidade está endereçada a cada um de nós no encontro com a arte, que nos transforma e, por consequência, opera uma mudança em nossa relação com o que está à nossa volta. Mesmo que numa escala delicada e sutil, mais próxima do tempo presente, ela pode, sim, ocorrer. Nos cabe a abertura para o encontro, motor fundamental da construção de todo o Terceiro Mundo.

LUISA DUARTE

SÃO PAULO, JUNHO DE 2011
Este texto foi produzido para a exposição “Introdução ao Terceiro Mundo”, de Marilá Dardot, na Sala A Contemporânea do CCBB Rio de Janeiro, de 02 de maio a 12 de junho de 2011.