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GRÁTIS

Julia Rodrigues

A noção de valor se faz presente na reflexão e produção de artistas contemporâneos. Começando com uma revisão critica da relação obra/mercadoria, como provocar uma reflexão entre arte e mercado? Desta aproximação criou-se o desafio de produzir trabalhos de arte questionando as premissas do mercado cultural. Status, retorno monetário, obtenção de cultura, identidade cultural, reprodução, ética, comercialização, noção de produto, publicidade, distribuição e desejo foram algumas palavras-chaves para esta exposição.

Assimilados e ampliados junto à sociedade contemporânea, os conceitos de fetichização da cultura e valor (tanto em sua forma objetiva, referente à economia, quanto a mais subjetiva e imaterial do termo) foram observados pelos 21 participantes da mostra.

Para discussão desta relação entre mercado e arte foi traçado um paralelo entre uma galeria comercial e um shopping center. Ambos recebem tratamentos estratégicos de exibição. Mais do que mostrar obras em seu estado temporário, os mecanismos da cultura de exibição e de agrupamento das obras (seja decorativo, narrativo, situacional, cronológico, temático...) em seus vários registros da crítica à adoração, são formatados por estratégias de mercado. Como o desejo divulgado pela publicidade com a promessa de adquirir cultura. No ápice do capitalismo globalizado como diferenciar preço de valor? Esta aproximação entre galeria e shopping se explicita quando buscamos nos localizar no espaço expositivo. A sinalização se dá em um totem informativo, daqueles que direcionam o consumidor de um shopping até a loja desejada. Cada participante é identificado por uma logomarca, evidenciando o estado de “grife”. O Totem descreve cada “produto” oferecido ao visitante.

Mais do que objetos de arte à venda, a coletiva Grátis traz “produtos” imateriais. Estes representam uma potência que pode ser colocada a serviço da sociedade e, neste sentido, um campo ideológico com repercussões importantes na vida cotidiana. Vendem-se emoções por tempo determinado; discos de vinil em silêncio como páginas em branco para depositar memórias; cópias genéricas de filme de arte, baseado no comércio informal; embalagens e propagandas, fetiche em sua forma mais explicita; hipóteses entre outros itens.

Esta exposição tem como objetivo repensar valores da vida cultural e social. Como produzir cultura em uma época regida pelo exagero e ofuscação da mídia capitalista? Por meio destes trabalhos torna-se possível questionar padrões pré-estabelecidos, logo abrir-se ao novo. Como por exemplo, trazer a discussão que as indústrias fonográfica e cinematográfica já vêm divulgando, de autoria e direitos autorais. Pode-se considerar sobre as implicações éticas do desenvolvimento na ciência e tecnologia; ou salientar especificidades do mercado de arte que optam por tiragem limitada em produções que utilizam mídias como o vídeo e a fotografia, que tem por essência a reprodução ilimitada.

Julia Rodrigues
julho/2004