Exposies

João Loureiro - Fim da primeira parte

DE 01/03/2011 - 09/04/2011 A

 

Um desenho atrás de um outro

Carlos Eduardo Riccioppo (2011)

Um desenho de João Loureiro traz uma chuva de meteoros. Onze pedras feitas à lápis distribuem-se em uma folha de papel jornal apresentada em posição vertical, concentrando-se mais em sua região superior. Todas recebem um tratamento de riscos próximos ou hachuras na parte de baixo, o que confere a elas uma indicação de peso ou aceleração e localiza sua fonte luminosa, que incide de cima para baixo.

Não se sabe ao certo se se trata de pedras de tamanhos diversos ou de pedras sugeridas como que em planos de diferentes distâncias, porque elas não se tocam e não são apresentadas umas detrás das outras. Ao contrário, sua distribuição no papel é espaçada e ali não há registros que queiram sugerir a sombra ou o rebatimento de um elemento sobre o outro. As pedras surgem como que em repetições em escalas distintas, insinuando, inclusive, que poderiam ser em maior número, uma vez que duas delas aparecem pela metade, interrompidas pelos limites do papel, uma à direita e a outra à esquerda.

Na parte de cima de cada uma das pedras há manchas vermelhas, que são em tudo contrárias ao caráter diagramático que parece ter o desenho a lápis que circunscreve cada uma delas. Ali, porém, essas manchas são imediatamente identificadas como códigos que indicam que das pedras escapa um vapor colorido, ou que esse vapor é o rastro que elas deixam em sua queda livre. Não importa; fato é que essas manchas são vermelhas e irregulares, de modo que elas implicam de pronto uma ideia de calor e uma característica gasosa. Somando-se a isso o fato de que se localizem na área contrária às hachuras das pedras, as manchas chamam para si a justificativa da oposição de luz e sombra dos desenhos, caracterizando-se como as fontes de iluminação de cada uma delas – se a sombra está embaixo, é porque há luz em cima.

Nada nesse desenho escapa à codificação, e é curioso que tudo ali se oriente a partir da mancha; é como se o artista criasse uma situação inteira para que o elemento, marcado pela difusão, pudesse adquirir constância, regularidade, que pudesse, afinal, volatilizar-se em uma imagem mais abstraída. A mancha é a bula do desenho, a regra ou matriz de tudo o que nele pode ocorrer.

Mas, exatamente esse elemento que coordena todo o desenho, não pode ser, na verdade, seu ponto de partida interno. Antes que se possa pensar no artista se comprazendo diante daquele acidente ou acaso, exercitando ali a faculdade da imaginação e se permitindo projetar, naquelas manchas, um universo sempre infinito de possibilidades, ocorre que elas já terão vindo como componente exterior, já carregadas da história de um desenho passado – que poderia ter sido um desenho de bolhas de ar, com uma forma análoga àquela que possuem as pedras; ou o desenho de uma avalanche, que compartilha com esses meteoros um mesmo sentido de queda, desastre ou manifestação da natureza; ou, ainda, poderia ter sido, de repente, o desenho de rodelas de salame fatiado e outros frios espalhados sobre uma tábua, que dividiria com a chuva de meteoros uma mesma escala e uma mesma disposição na superfície do papel, se vistos de cima.

Aqui, porém, a história do desenho passado é mais crucial, porque há mesmo um desenho que dá origem àquelas manchas. E tal desenho não é outro senão também o de uma chuva de meteoros – uma em que, todavia, as pedras é que são vermelhas e as indicações de sua aceleração, registradas por meio de riscos retos e verticais, feitos a lápis.

Não é preciso dizer que a disposição das pedras é a mesma nos dois desenhos, nem que a cor das pedras incandescentes é a mesma daquelas manchas; porque esse segundo desenho foi feito em cima da folha que deu origem ao primeiro (nada de que não se pudesse suspeitar ao se reparar que os dois desenhos são feitos num mesmo tipo de papel jornal, lembrando que o papel jornal costuma vir da loja na forma de blocos).

Aquelas manchas tão sugestivas sucumbem rapidamente ao estatuto de eco no instante em que se descobre que elas são o efeito do excesso de tinta depositado em uma outra folha de papel; e mesmo toda aquela condição criada para absorver essas manchas em uma imagem coesa (de fato, o desenho de João, não importa o quão “sujo” possa ser, não suporta a mancha) demonstra-se prevista já no desenho anterior.

Um desenho de João supõe um desenho que veio antes e pressupõe um desenho que virá a seguir. Entre um desenho e outro, o que muda são os códigos de representação da mesma chuva de meteoros, e tais códigos não reivindicam precedência uns sobre os outros, tendo sido todos colhidos também em outros desenhos, e portanto revelando-se ainda mais exteriores, encontrados nos mais distintos universos de representação, desde os quadrinhos até os desenhos animados, as ilustrações, os projetos para a construção de objetos tridimensionais, as plantas, os mapas.

Assim como esses códigos se multiplicam, também os desenhos do artista se multiplicam, alinhavados sob um mesmo tema, sob uma mesma forma ou simplesmente sendo refeitos, observadas as novas condições a que estão submetidos (a nova folha, seja ela de um tipo de papel diferente ou esteja ela já marcada pela primeira). O que importa é que não há possibilidade de síntese nos desenhos de João, porque não há o desenho primeiro, original, mas tão somente um movimento de derivação.

Talvez por isso esses desenhos não possuam nem nome nem data, e seu aparecimento se dê de modo anacrônico, todos a um só tempo, em uma repetição sem começo nem fim. Muito embora não seja dada a esses desenhos a possibilidade de uma volatilização completa, porque eles devem tudo às menores propriedades das folhas de papel em que ocorrem, que absorvem demais ou de menos a tinta ali depositada, que apresentam as imagens de modo mais ou menos imediato e que determinam, em boa parte, quais códigos de representação serão cabíveis caso a caso – como se a elas fosse dado o papel de chancela histórica, de teste do tempo presente de tudo aquilo que sobre elas se deposite.

Carlos Eduardo Riccioppo
Fevereiro de 2011