Exposies

João Loureiro - Zootécnico

DE 26/05/2009 - 27/06/2009 A

 

Zootécnico

João Loureiro (2009)

A proposta para a exposição na galeria Vermelho – Zootécnico – é um desdobramento de um projeto para um trabalho que enfileirava quatro animais de cor cinza. Originalmente, um rato, um lobo, um rinoceronte e um elefante. Eles seriam expostos lado a lado, ou em fila indiana, sempre dando a ver a ordenação relacionada ao tamanho, formando uma “escadinha”, como em fotos familiares antigas. Na galeria, a nova versão do trabalho tem um animal a mais, um burro. Os animais, em escala 1:1, foram escolhidos segundo dois fatores: sua cor natural, que deveria ser cinza, e seu tamanho, que deveria ser visualmente proporcional ao dos ambientes em que seriam inseridos.

A transformação daquela proposta original na exposição para a Vermelho está relacionada à constatação de que são recorrentes, nos diversos tipos de espaços expositivos, mostras que se organizam segundo “modelos” aparentemente determinados pela arquitetura. São modelos demarcados, que o público habitual conhece. Esse público, ao visitar uma exposição, não apenas é capaz de reconhecer o modelo, mas carrega a expectativa de encontrá-lo. Isto interessa ao trabalho: a experiência demarcada da exposição de arte.

Pensando sobre a configuração específica da Vermelho, achei que um bom caminho para problematizá-la seria determinar que um único trabalho ocupasse todos os espaços da galeria. Um trabalho simples, de poucos movimentos, capaz de “desvelar” o partido arquitetônico da galeria, afastando-a da pretensa neutralidade. O trabalho transformaria em assunto a condução ideológica da percepção dos trabalhos que o modelo de aproveitamento dos espaços adotado pela Vermelho proporciona.

Zootécnico, então, repete uma única solução para todas as situações que a galeria apresenta. As cinco espécies de animais, todas originalmente cinzas e aqui representadas em espuma cinza, espalham-se pelos diferentes cômodos. Ao reduzir a variedade ao movimento mínimo – a alteração da espécie segundo a proporção ao espaço – o trabalho a reitera criticamente[1].

As formas dos animais foram determinadas de modo a reter certa complexidade, mas alcançar um caráter genérico, com amplo e imediato reconhecimento. Interessava sugerir, nas etapas iniciais da apreensão do trabalho, um empenho na “forma”, de modo que a expectativa de “variedade” fosse reforçada. Interessava que o visitante, ao entrar na galeria, se deparasse com o lobo e tendesse a interpretá-lo como um objeto autônomo, auto-suficiente, sem conexões necessárias com os trabalhos subseqüentes; que a primeira peça fosse vista como uma “escultura”, e não como parte de um único trabalho que atravessa diferentes espaços.

O uso do material bruto, sem revestimento, colabora para isso. Ademais, o processo de construção dos objetos em  Zootécnico, baseado no “fatiamento” dos animais em camadas de espessuras que variam de acordo com a espécie (o rato em fatias de 1,0 cm, o lobo em fatias de 1,5 cm, o burro em fatias de 2,0 cm, o rinoceronte em fatias de 2,5 cm e o elefante em fatias de 3,0 cm) e no posterior empilhamento dessas fatias, guarda relações com os métodos tradicionais de construção de esculturas. “Fatiamento” e empilhamento são procedimentos ensinados nos primeiros anos dos cursos universitários, destinados normalmente à transferência de escala ou de matéria. No Zootécnico, esse método é instrumentalizado, de modo a se obter algo como uma visualidade genérica de escultura.

Para favorecer a ambigüidade, às referências à escultura tradicional soma-se a opção pela cor cinza[2]. A fatura aparentemente impessoal dos animais coincide com a principal informação relacionada a essa cor. É possível entender que ambas funcionam como uma “camuflagem”, disfarçando a real natureza daqueles objetos. A impessoalidade sugere uma adesão integral a um programa crítico, o que não ocorre de fato, assim como a cor cinza dos animais sugere uma neutralidade aquiescente com as pretensões do cubo branco, embora ela nada mais seja do que a cor mais verossímil para se representar esses animais.

 

 

[1] É preciso entender que a galeria é sua arquitetura; a arquitetura é a formalização de um projeto ideológico, de um determinado desempenho, de uma função e de um discurso. A arquitetura não é uma casca neutra, não é desinvestida de posicionamento. Ela é, necessariamente, ideológica.

[2] Embora o uso da representação “tradicional” possa soar cínico, como se, pela fatura impessoal do trabalho, voltada à produção de verossimilhança, houvesse a intenção de “anular” as formas eleitas, apostou-se na capacidade desses objetos causarem impacto. A ambigüidade a que me referi acima, ainda que se pretenda “programada”, não é externa ao trabalho.