Exposies

Coletiva - Asimetrías y convergências

DE 01/08/2009 - 04/10/2009 A

 

Asimetrías y convergências- Jóvenes expresiones del dibujo en Colombia

María Iovino (2009)

  Entre as razões que podem explicar o renovado interesse pelo desenho como expressão autônoma, que há cerca de duas décadas vem tomando impulso ao redor do mundo, ganha sentido a crescente necessidade do pensamento sobre as estruturas em um momento como o presente.

A informação é múltipla e inabordável em todos os campos, ainda que, paralelamente, aumentem dia-a-dia as possibilidades de gerar imagem e texto, assim como os canais através dos quais isso pode ser feito. Em um panorama como este, deixou de se entender o fundamental e inclusive a lógica das centenas de propostas que surgem dia-a-dia. Entretanto, com a superabundância, ganhou lugar um hábito ingênuo, no qual é inevitável que reinem a confusão e, consequentemente, o extravio. 

A resposta natural do trabalho intelectual tem sido repensar os assuntos básicos e as questões elementares, assim como o sentido que possuem.Daí que, junto com a recuperação do desenho e de outras abordagens criativas modestas, toma tanta força o pensamento da baixa tecnologia. Esses, além do mais, são campos que se hibridizaram desde que começaram novamente a surgir, na medida em que se focaram nos mesmos objetivos: desentranhar o que subjaz sob as capas de acumulação e detrás das linguagens ostentosas.

De outra parte, deve-se também estimar a influência exercida pela urgência na recuperação do meio ambiente, através de diversos mecanismos, sobre este tipo de abordagem, o que supõe estímulos para o pensamento alternativo que concebe novas engrenagens inocentes e consideradas com a natureza.

Países como a Colômbia têm uma proposta verdadeiramente rica em muitos horizontes para as novas perspectivas. Isso porque a sobrevivência em condições de subdesenvolvimento os obrigara a reinterpretar os avanços das ciências através de suas inatuais infraestruturas tecnológicas e industriais para gerar, de maneira espontânea e em seu desempenho natural, produtos originais e criativos. E, além do mais, o desenho tem sido o meio que mais força exerce tradicionalmente nas artes visuais da Colômbia. É por isso que, entre outras razões, através do desenho a fotografia e mesmo outros meios técnicos vem sendo entendidos e interpretados.

Talvez pelo estigma de seus problemas políticos agudos, a Colômbia é um país que por muitos anos não esteve em vista de uma investigação internacional sobre arte e, como decorrência, seus artistas tiveram pouca circulação, apesar da maturidade de muita de suas proposições. Não obstante, hoje, ainda que sobrevivam de diversas maneiras posições e discursos centralistas e excludentes, tanto na economia como na política, é impossível viver no isolamento ou nos lugares que há poucos anos desestimava-se enquanto periferia. São demasiados os mecanismos que permitem interatuar de forma simultânea com o velho aparato, além de que esses mecanismos se estendem a incontáveis circuitos inovadores e alternativos. Assim se foi dando a conhecer o intenso panorama artístico da Colômbia, como a novidade que comporta seu olhar, que hoje é amplamente difundida.  

Por décadas, os artistas colombianos se identificaram exclusivamente com o tema da violência, do qual, com toda lógica, a circunstância política e histórica do país exigiu tal reflexão. Porém isso derivou no absurdo de que essa leitura foi assimilada como um clichê,não somente fora senão também dentro do próprio país, com claras conseqüências em uma produção eminentemente cômoda e comercial.

Portanto, é claro, que exista uma reação a esse tipo de olhar no presente, o que não implica em um abandono reflexivo sobre os problemas do contexto. O que ocorreu é que eles passaram a observá-lo a partir de outras óticas e desde o filtro de outros intercâmbios e relações. Para a geração que cresceu e se formou nos anos mais intensos do desenvolvimento da internet, o mundo e o próprio espaço são outros. Os tópicos de sua reflexão universalizaram-se e dependem de uma sonoridade muito diferente daquela que abriga a fronteira territorial e que determinou a criação artística até 15 anos atrás.

O que o músico canadense Murray Schafer denomina de sound scape das sociedades - consistente de um murmúrio que as demarca um limite, bem para repetir-se, revisar-se ou para desesperar-se - hoje tem, também, que considerá-lo a partir da sonoridade que emitem as relações universais que se propiciam em diferentes campos da informação e da informática. Ao pensar em um único exemplo a este respeito, cada indivíduo que trabalha ou se relaciona a partir de um computador, amplia a cada dia seu diálogo com outros e com uma quantidade insuspeita de fontes de conhecimento. A forma de pensamento que propiciam essas estruturas é inédita e isso implica pensar em muitos outros aspectos que sobrepassam os próprios limites.

Os únicos artistas nesta mostra que seguem focalizando seus interesses de maneira visível na complexa teia política e social da Colômbia são Milena Bonilla e Luis Hernández Mellizo, porém com uma aproximação claramente inovadora com respeito à anterior. De distintas maneiras os desenhos dos dois artistas repensam a fronteira e a desestabilizam. Milena Bonilla escreve ‘O Capital’ com a mão esquerda e depois de fazê-lo, ela mesma produz uma edição pirata de seu colossal esforço. Na obra de Luis Hernández Mellizo o questionamento do território físico como contentor único é sua constante, daí a presença reiterativa da água como elemento que, sendo instável, molda e marca o limite, porém, naturalmente sem perdurar.

Não é gratuito que seja o propósito educativo o que levou Nicolás París ao mundo da arte. Seu desenho e sua reflexão têm seguido sempre a ideia de gerar outra ordem de pensamento, de reestruturar mediante operações de compreensão da imagem e do mundo que a gera e da qual ela faz parte.

É lógico, pelas mesmas razões, que muitos dos artistas presentes nesta mostra como Ícaro Zorbar, Mónica Naranjo, Diana Menestrey, Cesar González, Daniel Santiago Salguero, María Isabel Rueda, Adriana Salazar, María Isabel Arango e Kevin Simón Mancera concebem as imagens de suas obras pensando nas relações e nos afetos. Faz poucos anos que esses temas eram tidos como ilegítimos e, inclusive, ridicularizados intelectualmente. Porém, hoje, no espaço da internet as relações – das mais concretas às mais abstratas – estão se multiplicando com muitas implicações, e isso exige uma reflexão sobre as novas formas de conexão. Além do que a deterioração do meio ambiente fez compreender o indivíduo como parte responsável no interior de um emaranhado vital em permanente recomposição tanto para sua melhoria quanto agravamento, dependendo da opção que se tome. Por isso mesmo, a ecologia pode ser também entendida como uma forma de redimensionar as problemáticas políticas e sociais, desde um ângulo planetário e natural, que inclui mais fatores de reflexão do que a denuncia dos fatos sociais ou violentos precisos. Dessa maneira, de imediato, pode-se ir ao próprio núcleo do problema, porém sem determinar fronteiras e reduzi-lo a eventos específicos, no qual permite divagar sem a restrição dos argumentos concretos, acerca das condições em que pode nascer e permanecer um conflito.

Nesse sentido é que Luisa Roa penetra nas imagens do caos. Seu objetivo é desentranhar as ordens que se configuram no interior dos estardalhaços e que permitem que a engrenagem siga mantendo um movimento contínuo e, dentro de uma grande complexidade, lógico. Próximo de suas apreciações, porém desde outras motivações intelectuais, Andrés Ramírez Gaviria analisa incansavelmente a abordagem sobre a perfeição e assim confronta a força das mais mínimas e invisíveis partículas em movimento com as rígidas margens da interpretação moderna. Sua ideia de geometria adverte então a exatidão como um assunto em trânsito e por isso mesmo, em permanente ajuste.

Nessa somatória de ideias, que convergem em objetivos comuns de maneiras distintas e desde as mais diversas argumentações, Angélica Teuta, Pedro Gómez Egaña e Carlos Bonil armam mecanismos tão simples como surpreendentes, com os quais remetem a visão ao entorno. Enquanto isso, fazem observar novamente a multiplicidade de eventos do mundo que nos rodeia, e também, a lógica que obedecem os aparatos, que tem caído progressivamente no esquecimento.

Ainda que o interesse cósmico de Pedro Gómez Egaña  se identifique imediatamente, também para Carlos Bonil e Angélica Teuta a imagem é somente uma das manifestações de um universo infinito e inapreensível, que nunca poderemos esgotar com o intelecto.Com esse entendimento os trabalhos aqui reunidos levam o espectador, através de sensações, para fora do formato e do plano da representação e, ao mesmo tempo, ao interior de sua estrutura.