Exposies

Já visto

DE 11/02/2020 - 21/03/2020 A

 

(2020)

A Vermelho apresenta, de 11 de fevereiro a 21 de março, Já visto, nova individual de Cinthia Marcelle.

Representada pela Vermelho desde 2007, Marcelle ocupa a galeria pela terceira vez com uma individual. A artista também já expos na Vermelho outras duas vezes com Tiago Mata Machado, seu parceiro frequente na produção de vídeos. Tendo os processos colaborativos como uma constante em sua carreira, dessa vez a artista expõe uma grande série de desenhos feitos em colaboração com Rodrigo Franco.

Marcelle acaba de encerrar uma individual no Wattis Institute, em São Francisco, EUA, onde a colaboração se dava de maneira ampliada, dependendo da participação do público para a ativação da instalação baseada na peça A Morta, de Oswald de Andrade.

Cinthia Marcelle segue em cartaz em Soft Power, maior exposição já apresentada pelo museu norte-americano SFMoMA (São Francisco - EUA), com organização de Eungie Joo. Além disso, a artista tem obras em exposições em cartaz no MAM RJ (Rio de Janeiro), na Fundação Joaquim Nabuco (Recife), na Penn State’s HUB-Robeson Gallery (Pensilvânia – EUA). Em março, Marcelle estará em cartaz na Fundação Merz, em Turim, em exposição curada por Claudia Gioia. Em novembro Cinthia Marcelle inaugurará uma grande individual no Museu MACBA, em Barcelona.
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Cinthia Marcelle: Já visto

Conhecida por suas grandes instalações, Marcelle reúne em ‘Já visto’ trabalhos que exploram proporções mais intimistas, embora a montagem das obras sonde estratégias de esquadrinhamento e proporção típicas de sua produção. Na exposição, Marcelle investiga pontos de inversão entre trabalhos à primeira vista abstratos e figurativos

Calendário (2020)

Em “Calendário”, Marcelle propõe uma contagem de tempo a partir de uma seleção de materiais - tecido, tinta, sarrafo e cadarço - e de alguns procedimentos. São 13 módulos com 6 camadas de tecido industrialmente estampado com 124 listras pretas sobre fundo branco. Cada módulo representa um mês do ano. O 13º módulo aponta para as relações de trabalho incutidas no fazer da obra, além de ampliar os sentidos de leitura possíveis sobre o trabalho.

As listras pretas são cobertas por tinta branca. A mesma medida linear de listras cobertas é rebatida com o cadarço preto que cobre segmentos de sarrafos que se acumulam gradualmente junto a cada módulo. Cadarço e listras têm a mesma espessura.

O ato de obliteração do branco sobre o preto, e a transferência do preto para os sarrafos, estabelecem sistemas de hierarquização e mecanização que refletem o empenho de trabalho investido na construção das peças. Essa hierarquização, no entanto, fica submetida ao sentido de leitura do trabalho, num jogo de adição e subtração sem começo ou fim. O 13º módulo é matricial e não carrega nenhuma interferência.

Duas cenas ou elogio ao amor (2014 – 2020).
Cinthia Marcelle com Rodrigo Franco

“Duas cenas ou Elogio ao amor” é uma série de desenhos de observação feita por um casal a partir de casais desconhecidos em lugares públicos. A mesma cena é ilustrada duas vezes, de dois pontos de vista, evidenciando mudanças sutis nas situações. A particularidade dos traços e a linguagem de cada desenho, remete à construção de uma vida a dois por meio de suas diferenças de perspectivas e subjetividades.

Os desenhos foram feitos em São Paulo, na Bahia e em diferentes partes da África do Sul, e mapeiam o relacionamento dos artistas desde 2014. Cada desenho traz em si um carimbo que pontua o local dos retratos.

Os desenhos são feitos rapidamente, a fim de não perder o casal observado. Essa velocidade do traço às vezes evidencia mais a estrutura dos corpos do que os sujeitos em si. O sistema dos desenhos e a organização dos quadros também colaboram para destacar sua estrutura.

Déjà vu (2019)

Na série “Déjà vu”, Cinthia Marcelle trabalha com a memória do espectador a partir da ilusão de já ter visto algo, como aponta a expressão francesa que, em tradução livre, quer dizer ‘já visto’. A expressão, porém, além de lidar com a falsa impressão de já se ter vivido ou visto algo, também se refere à possibilidade de nos defrontarmos com uma cópia ou plágio de algo, como aponta sua variação ce qui manque d’originalité (que sofre de falta de originalidade).

Sobre prateleiras, pilhas de moedas e um copo de vidro se alternam em seus posicionamentos em cada uma das três partes do conjunto. Em uma das prateleiras, as moedas estão na frente do copo, em outra, moedas e copo ocupam o mesmo espaço e, na última prateleira, as moedas estão atrás do copo. Além disso, o conjunto de moedas e copo se alterna entre à esquerda, ao centro e à direita da prateleira, como se juntas pudessem ocupar a mesma prateleira. As prateleiras não devem ser vistas juntas. Desse modo, ao se deslocar pela exposição, o espectador pode ter a sensação de já tê-las visto. Questões relativas à originalidade ou aos meios de produção seriada na arte estão lançadas a partir desse jogo.

Verdade ou desafio [Truth or Dare] (2018)

Verdade ou Desafio parte de uma fotografia tirada por Cinthia durante uma viagem à África do Sul. O vídeo mostra um insólito triângulo encontrado incrustado na terra vermelha queimada do interior do país. A forma gira com velocidade variável, às vezes desacelerando, mas nunca parando. Assemelha-se a uma bússola desorientada cuja agulha nunca navega definitivamente em direção à ordem ou desordem. O vídeo foi construído a partir de um software que animou a fotografia, fazendo-a girar sobre seu eixo. Em determinado momento, uma sombra projeta-se sobre a imagem. A sombra é a da artista enquanto fotografa o triângulo, mas pode ser entendida como sendo a do espectador que passa a ser incluído no jogo evocado pelo título aonde o jogador tem que optar entre a verdade ou o desafio. O som do vídeo envolve as salas da exposição e estabelece a circularidade da montagem: da alteração das listras em contagem de tempo, do desenho de figura humana em estrutura e da novidade naquilo que já foi visto.