Artistas

 . FABIO MORAIS

 
Marcos Moraes- Professor de História da Arte
Daniela Castro

Des(Aparecimento)

Marcos Moraes- Professor de História da Arte

 

“Time. There’s nothing we can do about it.”

Matthew Colling

 

Em tempos de barbárie, a sutileza e a delicadeza podem soar aos nossos olhos, mais do que aos nossos ouvidos, como um ingênuo grito de liberdade. Bombardeados por imagens incessantemente associadas à violência, em todas as suas formas de manifestação, da guerra à guerrilha urbana, da fome à exploração do homem pelo homem, cada um de nós produz seu arquivo de imagens, sua memória emotiva baseada nestas realidades. As imagens apresentadas na exposição, por Fabio Morais, e articuladas em seus duplos (imagem-imagem, cor-gesto, aparecer-desaparecer), não se revelam como produtoras desta reflexão sobre a violência e o excesso, mas da limpeza e de uma espécie de concisão de imagens recuperadas de um outro tempo, deslocado do real.

Uma coleção de fotografias antigas apropriadas pelo artista - os retratos – e outra de imagens produzidas, também no passado,  por ele – as de paisagens – são o ponto central dos trabalhos selecionados para a mostra. As imagens não lidam com a ação de fungos ou outros agentes corrosivos e deteriorantes, que destroem a materialidade do suporte da imagem, mas lidam com o poder inexorável que o tempo possui e com o qual persiste em diluir e dissolver, mergulhando-as no (des) aparecimento. Há em todo o conjunto um jogo ambíguo: é a mesma luz que revela e materializa, e que destrói; o papel que se permite deixar marcar pela imagem e, que com o tempo ele mesmo irá apagar; o papel que se oferece como suporte e que desafia o espaço, ao ser esculpido e avolumar-se em objetos para alçar vôo.

Presente fortemente nas experiências contemporâneas a idéia de arquivo, do acúmulo de informações  permite, ao artista, um processo de transformar arquivos pessoais em novas pesquisas visuais. A fotografia significa registro, não necessariamente pessoal e autobiográfico, mas também   das relações humanas e afetivas, e interessa à Fabio Morais a persistência dessas relações, não se atendo a elas  como imagem/ documento. As fotografias não se entregam por inteiro ao observador, pois é preciso ler suas estórias, que nós fabulamos, uma vez que deixaram de ser representação – retiradas de seu círculo de relações - para se tornar narração, articulada por cada um de nossos olhares.  A imagem existe assim, como fruto da relação de afetividade, de uma relação que leva o “fotógrafo”  registrar este flagrante de sua intimidade pessoal, de sua vinculação sensível com a realidade, da materialização de um desejo de proximidade do e com o outro.

A partir das imagens aparentemente visíveis, um paradoxo se apresenta, neste momento, ao olhar do apressado transeunte que se depara com a grande vitrine de vidro na avenida Paulista, pois ele realmente não as vê, a não ser como uma tênue idéia, concretizada em volumes de cor, traduzidos nos painéis/ paredes, nas molduras e nos suportes destas imagens, que podem ser imediatamente associadas com a pele.

A direta associação cromática com a pele, na parte inicial da exposição também se coloca como fator distanciador e apaziguador do olhar. A cor é a materialização, mas também o sonho, uma sensação, ao mesmo tempo de estranhamento e  de calmaria. O espaço todo das imagens e do suporte que as apresentará ao observador – os painéis e, por conseqüência a sala -  está tratado de uma mesma gama de tonalidades. Ao entrar no espaço a cor vai nos envolvendo, nos expondo a um estado em que tudo se condensa. A realidade apresentada, agora,  de forma monocromática nos retira do mundo que ficou no exterior da galeria, nem mesmo os sons nos parecem poder trazer de volta. O efeito nos permite ir mergulhando no universo dos desenhos, das linhas gravadas, dos volumes perpetrados, das imagens, dos sonhos e simbolismos criados por Fabio Morais. Todos os elementos nos parecem remeter a fragilidade, a um mundo que poderia se desfazer a um sopro, mas que no entanto permanece ali aglutinado, como que apreendido pela cor.

Há, na situação proposta pelo arranjo no espaço expositivo, simultaneamente um despojamento, uma não grandiosidade que nos permite uma aproximação fluida e leve, ao mesmo tempo em que imbuída de uma carga emocional, lírica. É perceptível a permanente busca de algo, que para o artista, se torna essencial: a presença da afetividade e das relações; é preciso reter aquilo que, a ele, parece vital e, transpor, este elemento, para um suporte, um novo repositório da memória.  Existe em cada imagem algo que é vida e, esta, é vista como que diluída, velada por camadas de superfícies que a distanciam da aparência da realidade, para mergulhá-la na essência desta, na persistência desta enquanto memória.

Abr. 2003

 

 

 

Do livro esculpido a transformar-se em asas, passando pelos diminutos livros manufaturados que irrompem dos papéis, até os relevos dos pássaros na paisagem-retrato que encerra a narrativa da exposição