Artistas

 .

 
Tadeu Chiarelli
Agnaldo Farias
Marcos Hill
Santiago García Navarro
Edward Lucie-Smith

Da volúpia do desejo a simplicidade da morte

Tadeu Chiarelli (01/12/2000)

Eis aqui o visitante frente a uma poética aquela como a de Marco Paulo Rolla, onde o erotismo parece configurar-se de maneira explicita como forma de escape ao caráter irreversível da morte, ao mesmo tempo em que retiram da morte os elementos eróticos que ela possa ter. Raramente na arte brasileira torna-se público um imaginário erótico assim tão particular e operado por meio de formas, materiais e procedimentos técnicos tão amplos.

Do desenho a desempenho, da fotografia ao veludo, Rolla surpreende o observador acostumado a buscar na produção de um artista apenas o artesão especializado em uma única modalidade ou material. Infiel a qualquer procedimento, Rolla parece querer ampliar a potencia e a infertilidade de sua poética, justamente pela difusão da mesma em vários suportes e se não se percebe no artista qualquer espécie de fidelidade quanto às técnicas e/ou procedimentos, o mesmo creio que seja possível dizer quanto ao endereçamento de seu desejo: corpos femininos, corpos masculinos e corpos andrógenos e sedutores, hora pintados, hora desenhados, hora fotografados... Chama a atenção para uma espécie de desejo difundido a tudo e a todos sem direcionamentos premeditados demonstrando uma complexidade que riquíssima, extrapola, no entanto – e felizmente! -, os aspectos apenas formais da obras apresentadas.

Os breves comentários que se seguem, justamente por serem breves, não têm como objetivo abarcar todo interessante universo erótico, presente na atual produção de Marco Paulo Rolla. Meio difuso também, procuram apenas chamar a atenção para um e outro aspecto da produção do artista, funcionando mais como agentes detonadores de possíveis interpretações para algumas dessas obras que guardam infinitas possibilidades interpretativas o título da mostra – “Da volúpia do desejo à simplicidade da morte” - sinaliza questões estranhadas nos trabalhos em exposição mais do que um mero título, “Da volúpia...”, configura-se, talvez, mais como a síntese de um itinerário, ou de uma narrativa.

O artista propõe ao observador uma espécie de historia onde o clímax, aparentemente, seria encontrado no inicio (a “volúpia do desejo”) e não no final (a “simplicidade da morte”).

Como sabemos, qualquer viagem ou narrativa (sua representação) dá-se no tempo e no... Espaço e, para tornar ainda mais instigante a mostra, o artista (com exceção das performances gravadas em vídeo), manifesta-se por meio de obras que – em tese -, estão ligadas apenas ao espaço: pintura, desenho, fotografia, relevo. Uma vez que a exposição não se configura como uma instalação (categoria artística que tende a ocorrer no espaço e no tempo, o que facilitaria – ou tornaria mais óbvia, o desencadeamento da narrativa sintetizada pelo título da mostra...), repito, uma vez que a exibição não se configura como uma instalação, estando mais próxima do conceito de “amostragem” da recente produção de Rolla, teríamos que buscar o elemento temporal que uniria a “volúpia do desejo” à “simplicidade da morte”, em cada obra em particular. Ou seja: Rolla, antes de mais nada, terá que demonstrar que conseguiu vencer, em cada uma das obras que apresenta, um dilema muito grande para os artistas que produziram até o final do século XIX, mas que se tornou obsoleto durante o século XIX quase todo: refiro-me à dificuldade sentida por vários artistas através dos séculos, em representarem o tempo (da volúpia do desejo à simplicidade da morte) no plano bidimensional.

Até o século XIX, vários artistas resolviam tal questão, por meio da eleição daquilo que se convencionou chamar “momento fecundo”: apenas davam inicio à obra, após decidirem, dentro da narrativa que desejavam representar uma cena capaz de informar o observador sobre tudo o que teria vindo antes dela (o que a teria gerado) e tudo o que viera depois (suas conseqüências). A ora “O brado do Ipiranga”, de Pedro Américo, ilustra bem a questão: incumbido de registrar na pintura o processo de independência do Brasil, Américo escolheu a cena onde D. Pedro II – segundo a tradição -, teria levantado a espada gritando: “Independência ou morte!”... Mas, observando os trabalhos de Rolla, nota-se que ele não escolhe “momentos fecundos”, como seus antecessores. Chegando à cena depois, inclusive, da arte moderna, Rolla parece possuir outros ardis.

Nem acadêmico (como Pedro Américo), e nem moderno (como aqueles artistas que negaram e negam às artes visuais qualquer possibilidade de significar nada além delas próprias).

Rolla, dono de uma sensibilidade típica de fim de século, e de milênio que determina melancolicamente, se vale de um estratagema muito usado por um determinado segmento da arte do século XX: ao invés de criar imagens e/ou formas, o artista tende a se apropriar daquelas já existentes.

No entanto, o conceito de eleição indiferente, presente no ready-made duchampiano, em Rolla perde qualquer sinal da frieza oriunda do racionalismo irônico, preocupado em desconstruir o sistema da arte pelo deslocamento de objetos e/ou imagens comuns para o universo da arte.

A atitude de Rolla é mais quente. No caso das serigrafias pautadas nas fotos de pin-ups, o artista, como uma espécie de predador se apodera daquelas imagens que vagam no imaginário erótico de todos nós, e sobre elas faz jorrar sua libido incontida, ampliando a potencialidade erótica da caça abatida (a imagem da garota/ a volúpia do desejo), neutralizando, no entanto, o sentindo original da mesma (pela nova configuração que ele a faz assumir/ à simplicidade da morte). Se existe um “momento fecundo” a produção de Marco Paulo Rolla, este não está propriamente na “cena” retratada pelo artista, mas no ato mesmo em que o observador, por meio do olhar, flagra na obra, a luta entre Eros e tãnatos, entre vida e morte, entre amor e ódio, entre a ação do artista – destruidora e fertilizante, ao mesmo tempo-, sobre a imagem original que se transforma... À quando Rolla se apropria de veludos e pelos falsos para a realização de suas pinturas e relevos, percebe-se, de novo, a mesma atração mórbida pelo caráter sensual da caça abatida (o pelo falso e o veludo são referencias a corpos já sem alma, seja de animais ou de seres humanos). No entanto, tal atração hipnótica pela morte parece atenuada pelo sentido reivindicador (mas não menos erótico), assumido pelas imagens e/ou formas produzidas por Rolla sobre aqueles arremedos de pedaços de carcaça humana ou não. Aquelas formas, espécies de tatuagens/profanações, que potencializam o caráter erótico do veludo e do pelo falso, essas obras de Rolla, mais uma vez, em si mesmas, é o momento fecunda da narrativa que nos propõe a cada trabalho...

Riquíssima extremamente complexa, essa amostragem das obras de Marco Paulo Rolla coloca o artista como possuidor de um dos mais singulares imaginários surgidos no campo da arte brasileira atual.