Blind Date

Ao escrever esse texto, as obras dos 17 artistas reunidos na exposição ainda estão sendo feitas. Aqui não se realiza o percurso convencional das mostras coletivas, com assinatura curatorial, visto habitualmente. Ocorre, sim, uma espécie de blind date. Os trabalhos, o desenho da montagem, tudo ainda está por ser descoberto. E, eu diria, o próprio “tema” da exposição, sexo, encerra um mistério, o que faz com que a sensação seja a de um tatear no escuro. Esse modo de fazer abriga, por sua vez, uma dose de aposta que, em tempos onde tudo é regido pelo cálculo que mira o sucesso, não deixa de ter sua pertinência. Assim, essa exposição se trata também de um pequeno movimento que busca alargar o espaço para a experimentação, a tentativa, incluindo os possíveis erros e acertos.
A vontade de falar sobre sexo partiu da constatação de uma ausência. Onde está o sexo, mais do que a sexualidade, na produção de uma nova geração de artistas brasileiros? Perguntávamos-nos, eu e Eduardo Brandão (Fotógrafo, Diretor da Galeria Vermelho), e não encontrávamos respostas. Realizar essa exposição significava criar o espaço e o tempo (mesmo que curto!) para colocar essa pergunta aos artistas e instigar respostas. No meio disso, busquei municiar a discussão, propor leituras (Georges Bataille, Octavio Paz, Sigmund Freud, Severo Sarduy, etc.), alinhavar trocas, ver, escutar, dizer.
O século XX foi pródigo em fabricar discursos sobre o sexo. Já em 1905, Freud publicava o seminal “Três ensaios sobre a sexualidade”. No campo da arte, de Marcel Duchamp aos surrealistas, passando por todo um rico diálogo com a produção poética e literária, o erotismo estava no centro das atenções. A partir dos anos 1960, testemunha-se a chamada revolução sexual. A descoberta dos anticoncepcionais promove uma mudança radical nos padrões de comportamento, cujos efeitos só retraem com o advento trágico da AIDS na década de 1980. Uma artista que condensa em sua obra, de maneira singular, esse arco histórico, incluindo o debate do multi-culturalismo e das micro-políticas das minorias, é Nan Goldin. O clássico ensaio fotográfico “The Ballad of Sexual Dependency” é um diário do mundo ao seu redor, realizado entre a década de 1970 e meados de 1990, período intenso, permeado por excessos de todo tipo. Goldin registra então, compulsivamente, o seu cotidiano ao lado de amigos e amores. Um dos maiores méritos da artista é não cair em estereótipos, mas sim tratar cada personagem com uma singularidade e um afeto ímpares. Se em “The Ballad of Sexual Dependency” vemos um universo de alterações drásticas, atravessado pelo registro de vítimas fatais da AIDS, as fotografias realizadas no início dos anos 2000 possuem uma outra atmosfera, indicando um tempo onde as relações são de uma natureza diversa. Sexo e amor continuam em primeiro plano, mas suas dinâmicas e seus cenários parecem mudar. Exemplo disso é “HeartBeat”, ensaio recente onde uma atmosfera mais solar está impressa nas imagens. Crianças muitas vezes estão presentes, e as relações surgem envoltas não só em desejo sexual, mas também num afeto mais leve e singelo.
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Mas e o presente para aqueles que nasceram entre 1970 e 1980? Situação dos artistas e da curadoria aqui reunidos. Como se dá a representação do sexo na cultura hoje? Parecemos viver tempos mais pornográficos do que eróticos. A pornografia enseja a visibilidade exacerbada, o erotismo abriga um jogo de imaginação, velamento e desvelamento, que o tempo de hoje, hiper-acelerado, tem dificuldade em comportar, quer-se mais, quer-se rápido.
Passamos da febre do medo da AIDS, mesmo sem ainda ter se descoberto a cura, para uma época onde paira uma espécie de ideal de plena liberdade quanto à sexualidade (não o sexo), em algumas classes sociais, como se ela, a sexualidade, não fosse sempre marcada pela história singular da formação de cada sujeito, algo que habita o inconsciente e por isso está sempre nos escapando. Em um mundo onde interessa tornar tudo mercadoria, pessoas e suas respectivas sexualidades entram no jogo. A lógica da sociedade de mercado solicita que tudo tenha sentido, lugar, para que possa ser reconhecível e ganhar valor de consumo. Vemos hoje esse território escorregadio, envolto em brumas, o da sexualidade, posto também num escaninho que possibilite sua transposição para o sistema do capitalismo avançado, como se se quisesse transformá-la em mais um produto pronto para ser vendido e consumido. Parte da arte contemporânea compreendeu esse sistema há tempos e fez desse entendimento o seu leitmotiv. Uma obra de fundo cínico como a de Jeff Koons é sintoma dessa compreensão.
Entretanto, há que se notar a contradição cavada no cerne dessa relação entre sexualidade e mercadoria. O elogio do hedonismo somado a uma mercantilização da sexualidade finda por colocar uma multidão em um beco de sofrimento, pois se trata de uma lógica contrária a diversos aspectos daquilo que está sendo “negociado”. Isso que é objeto de negócio envolve fluidez, ambigüidade, desejo, espera, gozo, dor, ganho, perda, afeto, fantasia, camadas e camadas difusas e por vezes inconscientes, que variam de um para um, e não podem ser medidas com o metro universal usado na época do elogio da eficácia. Metro que está em ação num seriado como "Sex And The City", onde a sexualidade é sempre uma performance da competência, da produtividade, entremeada pela convivência contraditória com subjetividades guiadas por um ideal romântico. Uma postura diversa a esta pode ser encontrada no livro que inspira o título dessa exposição, da escritora e cineasta Miranda July. Temos ali, nos contos de July, um erotismo dos desajeitados, dos amantes, mais que dos amados. Pedro Almodóvar, imbuído de uma genialidade ímpar, também põe em cena um repertório de personagens de grandes desdobramentos éticos e políticos que, no mais das vezes, estão encharcados de desejo sexual e movidos pelo amor, e quase sempre deixando entrever a vulnerabilidade, o desejo que desconhece a lei, a humanidade que conhece e reconhece as falhas.
Olhando dessa forma, parece que temos, de um lado, o sexo na cultura, e de outro, o sexo na arte. Mesmo que por vezes o sexo na arte se pareça mais com o espelhamento do sexo na cultura ? caso de Koons. Fiquemos, agora, com a arte. Se a premissa dessa exposição é uma pergunta cujos desdobramentos desconhecemos, se falamos em risco, aposta, preservação de um lugar para a experiência, procedimento que não visa, necessariamente, um alvo certo, essa vontade de caminhar mais pelo prazer da travessia do que pela certeza do ponto de chegada, tudo isso evoca características do erotismo e da arte, antes dela ser mais uma peça dentro da indústria cultural ? se é que não se trata de uma quimera desmedida ousar ainda pensar, mesmo que brevemente, nesses termos.
Segundo Severo Sarduy, o erotismo singulariza-se, antes de tudo, pela ausência de finalidade, ou seja, de vínculo com a reprodução biológica. Em seu “Escrito sobre um corpo”, Sarduy discorreu sobre as relações entre a linguagem barroca e o erotismo. O barroco possui justamente essa característica da superabundância e do desperdício sem finalidade, contida no erotismo. Tanto um como o outro se justificam por si mesmos. No barroco, a linguagem se desvia de seu fim natural: a comunicação. Bem como no erotismo encontra-se interrompida a finalidade reprodutiva do sexo. “(...) esta repetição obsessiva de uma coisa inútil (já que não tem acesso à entidade ideal da obra) é o que determina o barroco enquanto jogo, em oposição à determinação da obra clássica enquanto trabalho. A exclamação infalível que suscita todo ato barroco, quer pertença à pintura ou à confeitaria: “Quanto trabalho!”, implica um mal dissimulado adjetivo: Quanto trabalho perdido! Quanto jogo e desperdício, quanto esforço sem funcionalidade. É o superego do homo faber, o ser-para-o-trabalho o que aqui se anuncia impugnando o deleite, a voluptuosidade do ouro, o fausto, o desdobramento, o prazer. Jogo, perda, desperdício e prazer: isto é, erotismo enquanto atividade que é sempre puramente lúdica, que não é mais que uma paródia da função da reprodução, uma transgressão do útil, do diálogo “natural” dos corpos.” As palavras de Sarduy ecoam nas de Hannah Arendt: "Os únicos objetos que parecem destituídos de fim são os objetos estéticos, por um lado, e os homens, por outro. Deles não podemos perguntar com que finalidade? Para que servem? Pois não servem para nada. Mas a ausência de fim da arte, tem o "fim" de fazer com que os homens se sintam em casa no mundo.”
Se a proximidade com certas obras de arte pode nos doar a sensação de estarmos em casa no mundo, o erotismo, dos corpos e dos corações, também possui esse poder. Aprendemos com Bataille que somos, originalmente, seres descontínuos. Nascemos e vamos morrer sós. Entre um ser e outro há um abismo, uma descontinuidade. Mas há um ponto em que esse abismo se dissipa e o que eram dois torna-se um. É nesse momento, quando concretizamos o erotismo, no qual experimentamos, mesmo que brevemente, a dissolução da nossa descontinuidade e somos lançados num instante fundamental de continuidade com outro ser. Ali, nos tornamos seres contínuos.
Essa sensação de prolongamento é uma qualidade do encontro com certas pessoas, e com certas obras de arte. A ausência de finalidade, a transgressão do útil, presente na arte e no erotismo, é, por sua vez, em tudo contrária a um mundo que busca, de forma generalizante, a precisão, a competência, a produtividade, a correção, o lugar certo, até para aquilo que é constitutivo de cada indivíduo e por vezes um mistério para ele próprio, o sexo, a sexualidade. Daí que nos lançarmos num blind date quando escolhemos falar sobre sexo pode encerrar uma coerência insuspeita e uma dose, mesmo que pequena, de subversão. A pergunta, propositalmente ambígua, que dá nome a essa exposição, bem poderia se voltar para nós: É claro que vocês sabem do que estão falando?
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Lisa Duarte
São Paulo/Olinda (7 Colinas), Setembro de 2008