Exposies

DE 23/11/2017 - 23/12/2017 A

 

(2017)

Rosângela Rennó comemora em Nuptias sua sétima exposição individual na Vermelho - o 25º aniversário do projeto Arquivo Universal e o 20º aniversário da série Cerimônia do Adeus com comentários sobre alianças, valoração e gênero, a partir de quatro novas séries de trabalhos e da exibição do conjunto completo da primeira impressão digital do Cerimônia do Adeus, 1997-2003.

A série que dá nome à exposição, Nuptias, 2017, reúne 86 fotopinturas feitas por Rennó a partir de fotografias de casamento. As alterações da artista são feitas com tinta, objetos, recortes e recomposições, incluindo intervenções diretamente sobre fotopinturas originais da região do Cariri, nordeste do Brasil. Além de fazer referência à pluralidade de uniões afetivas independentemente de credo, raça, orientação sexual ou qualquer outra convenção, a artista revisita vários ícones da cultura da visualidade, tanto do ocidente quanto do oriente. As fotopinturas e seus próprios títulos fazem referência ao cerimonial (arroz, glacê), à cultura pop (Batman & Robin, La Lucha), à política recente (Bela, recatada e do lar, Femen), à religião (Burkas, La cieguita) e às disparidades sociais (Chacina).

Sobre a série, Rennó diz: “percebe-se que nesse século as sociedades de maneira geral têm sinalizado, de várias maneiras, mudanças radicais no modelo tradicional da união amorosa. Como exemplo, temos visto com maior frequência a oficialização de uniões entre casais homossexuais e os esforços de vários segmentos da sociedade em compreender e aceitar as novas variantes nos modelos de gênero. Digo vários segmentos, infelizmente, não todos. A aceitação dos novos modelos não é unânime e, menos ainda, universal. No Brasil, por exemplo, o que parece ser natural para muitas pessoas ainda é considerado uma doença ou um desvio comportamental abominável, e até mesmo crime em alguns países da África ou da Ásia. Ainda estamos muito longe da harmonia e da sabedoria e, infelizmente, a humanidade talvez pereça antes de atingi-las”.

Cem anos trata da celebração dos casamentos duradouros. Tradicionalmente, na cultura ocidental, o presente dado ao casal na comemoração de cada ano vivido em matrimônio deve ser feito com um material específico. Iniciada na Alemanha medieval, a tradição da celebração de uma união previa que no 25º aniversário de casamento os noivos fossem presenteados com uma coroa de prata e, aos 50, com uma coroa de ouro. Com o tempo outras simbologias foram criadas para cada ano celebrado.

Uma lista de cem palavras é o que pode ser visto e lido na instalação que Rosângela Rennó propõe para a fachada da galeria. Sob fundo prateado, estão enumeradas as cem bodas e seus respectivos materiais, num exercício catalográfico que representa a linha temporal que vai do primeiro ano ao centenário.

Estão destacados na lista da fachada os aniversários de 1 ano, de 20 anos e de 25 anos, apontando para as celebrações que orientam a exposição dentro da galeria. O de 20 anos (porcelana) celebra o trabalho Cerimônia do Adeus, o de 25 anos (prata), celebra o Arquivo Universal. Ao término da exposição, Rennó celebrará um ano (papel) desde o início da elaboração da série Nuptias. Na entrada da galeria expõe sua própria coleção de casais de topo de bolo, em uma plataforma de caixas de papel empilhadas em formato de bolo.

Iniciado em 1992, o projeto Arquivo Universal, de Rosângela Rennó, é um arquivo infinito de textos jornalísticos contendo pequenos relatos ou excertos de histórias pessoais que se tornam públicas através dos jornais, sempre envolvendo a presença ou a existência de uma imagem fotográfica, através de questões amorosas, políticas, criminosas ou acontecimentos banais do cotidiano.

A série Bodas de prata, do Arquivo Universal, 1992 – 2017 é constituída por um conjunto de seis textos gravados a laser em pequenas placas comemorativas, em prata; todos os textos tratam de situações que envolvem amor, casamento e representação fotográfica. Um dos textos da série Bodas de prata é justamente o primeiro do projeto Arquivo Universal e descreve o curioso caso de uma agricultora divorciada que recorreu à justiça para reaver a metade de sua fotografia de casamento, justamente a parte onde ela estava representada.

A série Bodas de porcelana, 2017, é constituída por uma série de 20 objetos de porcelana, feitos à maneira dos pratos decorativos que se expõem sobre a parede e celebra os 20 anos da série Cerimônia do Adeus. Casais de pratos justapostos evidenciam suas diferentes procedências, formatos, culturas e idades. Na face voltada ao espectador, Rennó gravou o título do trabalho original e um pequeno ícone de um automóvel da década de 1950.

Cerimônia do adeus foi realizada por Rennó por ocasião da VI Bienal de Havana, Cuba. Ao visitar a cidade para expor na edição anterior do evento, Rennó foi presenteada por uma fotógrafa local com uma grande quantidade de negativos de retratos de casamento que mostram uma tradição compartilhada por cubanos e brasileiros: o retrato dos noivos, dentro do carro , ao final da cerimônia. Sobre essa imagem recorrente, Rennó afirma: “Esta última foto simboliza de alguma forma, o fim do ritual de passagem e ocorre em quase toda documentação de casamento no Brasil e em Cuba, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Pelo menos em nossos respectivos países, os carros sempre representaram vidas novas e prósperas, relacionadas com o “American way of life”. O que me interessava, entretanto, era algo que era muito maior do que a cena enquadrada: ninguém pode escapar de uma ilha usando um carro. A conexão entre o simbólico do adeus ao antigo e consequente acolhimento do novo parece estar quebrada. Além disso, esses carros específicos — modelos americanos da década de 1950, reminiscência da era pré-Revolução — significavam tudo o que o sistema político cubano queria negar ou combater, mesmo assim, eles permaneceram fortes símbolos de uma mudança de vida.”