Exposies

Mamihlapinatapai

DE 17/10/2017 - 11/11/2017 A

 

(2017)

A Vermelho apresenta, de 17 de outubro a 11 de novembro de 2017, Mamihlapinatapai, a quarta individual de Cadu na galeria.

Paralelamente, a Vermelho recebe a Ocupação Silvia Cintra + Box4, dentro do projeto Galerias Recebem Galerias, uma ação da ABACT em torno do Art Weekend 2017, quando as galerias paulistanas funcionam em horários prolongados durante um fim de semana. Neste ano o evento acontece nos dias 11 e 12 de novembro.

Mamihlapinatapai

O título usado por Cadu para sua quarta exposição individual na Vermelho, Mamihlapinatapai, pode ser interpretado como a primeira obra ou gesto da exposição. A palavra tem origem no povo Yagan, indígena do arquipélago chileno da região da Terra do Fogo, e é registrada pelo livro Guinness de recordes como a palavra mais sucinta do mundo. Com tradução complexa, a palavra descreve um sentimento: “um olhar trocado entre duas pessoas no qual cada uma espera que a outra tome a iniciativa de algo que os dois desejam, mas nenhuma quer começar ou sugerir”, segundo Cristina Calderón, a última falante viva registrada da língua Yagan.

Com o tempo, a palavra ganhou novos significados e hoje pode ser entendida como um olhar compartilhado entre duas pessoas que se entendem e concordam com algo não falado. É um silêncio expressivo e significativo. Para Cadu, seus 10 anos de trabalho com a Vermelho, celebrados nessa exposição, construíram esse tipo de cumplicidade.

É a partir dessa cumplicidade que o artista propõe a instalação Negative Tap Dance [Sapateado Negativo, em tradução livre] que ocupa a sala principal da galeria. Para realiza-la, o artista utilizou a própria equipe da Vermelho como objeto de pesquisa e construiu um território aonde todos os componentes da equipe se igualam, através de um processo de escavação do chão que parelha as alturas de todos os funcionários – o funcionário de altura mais baixa ocupa um quadrante no nível mais próximo do chão do espaço e o mais alto ocupa o quadrante mais profundo, compensando as diferenças de alturas entre eles. Para Cadu, essa equiparação é fundamental, tanto para o funcionamento da galeria em si como para sua relação pessoal de trabalho.

Esse fundamento se desdobra na exposição em trabalhos com base nos diferentes elementos que compõem a materialidade de acordo com a teoria pré-socrática: fogo, ar, água e terra, esse último representado por Negative Tap Dance.

O ar vem representado por Windline, obra/ procedimento constante na produção de Cadu. Em parceria com o artista e designer Marcos Kotlhar, Cadu concebeu uma estrutura que sistematiza leituras do comportamento do vento em forma de desenhos. No aparato, dados colhidos por um anemômetro são interpretados por um software de leitura que utiliza a velocidade como vetor de deslocamento e a direção dos pontos cardiais como coordenadas para produzir comandos que movem uma caneta presa a um suporte numa área de desenho. A duração de cada desenho depende do tipo de investigação gráfica que se pretende observar, podendo estender-se por um período de poucas horas, até meses. O que se vê, é o registro da volatilidade do comportamento do vento em uma mesma região de forma gráfica - ou geométrica, já que constrói os desenhos formando relações espaciais entre pontos, retas e curvas. Em Mamihlapinatapai, Cadu mostra Windline Mar del Plata, que, em dez desenhos, investiga 24horas do comportamento do vento na cidade da costa da Argentina.

Oásis utiliza um sistema de mangueiras e coadores para produzir desenhos de matriz geométrica a partir do gotejamento de uma solução de água salinizada sobre papel e barras de ferro. Semelhante a um jardim, em que o surgimento das formas atende ao cultivo e ao cuidado, imagens que se constituem conforme as capas internas do minério são expostas pela irrigação corrosiva. Rocha, cristal, fluído e vapor atuam em consonância com os princípios alquímicos Solvet (Dissolução) e Coagula (Coagulação), confiando nos rastros deixados pelos diferentes estágios da matéria em depuração para estabelecer uma fantasmagoria da imagem.

Tulpa entra como a representação do fogo. Um octógono formado por incensos, apoiados uns nos outros em uma caixa, funciona como um relógio. Cada bastão de incenso passa o fogo para o próximo, criando um medidor de tempo a partir de olfatos. Cada período de tempo tem um cheiro diferente. Tulpa é o nome atribuído pelo budismo tibetano a entidades ou seres que seriam criados unicamente pela força da meditação. Tulpa é um pensamento materializado.

Cadu cria regularmente sistemas de aferição de tempo, seja com o sistema Windline, seja com processos de aplicação de ácido sobre superfícies, ou verificando a combustão que o sol provoca sobre variadas superfícies. São observações que transportam nosso olhar para outras maneiras de perceber o ritmo do mundo.

Completam a exposição, um conjunto de desenhos-pintura da série Pérola Cazma Fil, que misturam manchas de cor com desenhos de padrão geométricos. Segundo o artista, há aí um embate entre a natureza e o ornamento. Cadu fala da ostra, que produz pérolas como mecanismo de defesa; quando é invadida por um corpo estranho, como areia, parasitas e corais, a ostra envolve essa partícula em uma camada de células epidérmicas, que produzem sobre ela várias camadas de nácar, originando a pérola. Cazma fil é um termo árabe usado para descrever o marfim extraído de animais para produção de adornos. O animal de onde se extrai a presa ou o chifre, normalmente morre no processo, como a Ostra, quando é colhida para a coleta da pérola.