Artistas

 . MAURÍCIO IANÊS

 
Cauê Alves
Cauê Alves
Kiki Mazzucchelli

Êxtase e arte

Cauê Alves

“Filosofia e arte, juntas, não são fabricações arbitrárias no universo da cultura, mas contato com o Ser justamente enquanto criações”.

M. Merleau-Ponty. O visível e o invisível, 1959

O clímax da vídeo-instalação de Maurício Ianês Minha língua é a pena de um hábil escriba é o êxtase. Num determinado instante as imagens das quatro projeções sincronizadas se transformam completamente. Os olhos do artista se voltam para o interior e tudo se passa como se ele fosse transportado para fora de si. Como se atingisse uma outra dimensão, não mais nesse mundo sensível que habitamos e do qual nosso corpo é inseparável, o artista passa por uma experiência inexprimível, uma espécie de espasmo, um arrebatamento que provoca a perda dos sentidos e do controle sobre os movimentos corporais. Trata-se de um misto de exaltação mística, de um prazer supremo e também de assombro e perturbação.
O pigmento negro e informe que escorre da boca de Ianês revela a total falta de articulação da linguagem verbal ou escrita. É justamente da impossibilidade de comunicação exata por meio de signos convencionais, sejam sonoros, gráficos ou gestuais, que seu trabalho surge. Sua língua é a “pena de um hábil escriba” porque o sentido de sua expressão jamais poderia ser ditado ou transcrito por pena alguma. Se o texto de sua fala no momento do êxtase pudesse ser redigido seria silencioso, um papel vazio, fundo sobre o qual repousam todos os sentidos. O inexprimível, mais do que ultrapassar qualquer possibilidade de expressão é também aquilo que permite toda a expressão. É a raiz originária e primeira de onde brotam outras significações. Não se trata apenas do silêncio avassalador que nos faz calar frente a acontecimentos traumáticos, mas também daquele que permite a compreensão de que sem ele não haveria palavra, som ou sinal. A tinta que escorre da boca do artista é o que no limite sustenta todo sentido e expressão.
O trabalho de Ianês costuma flertar com o limite, seja da expressão, da representação, do corpo ou da vida. A referência ao local em que se suicidou o poeta Paul Celan (1920-1970) aparece nas imagens laterais projetadas sobre as duas paredes da vídeo-instalação. Nelas as águas, como o próprio fluxo do tempo, não cessam de passar sob a ponte Mirabeau, no Rio Sena, onde Celan se atirou. Entretanto o suicídio, além de uma questão fundamental para a filosofia contemporânea, como escreveu Albert Camus (1913 - 1960), pode ser o grande silêncio final, mas também ato poético extremo, contato último com o inexprimível. A morte é o limite máximo, fim do êxtase, saída de si e simultaneamente reencontro do homem consigo mesmo e com suas próprias invenções.
O inexprimível é o solo comum de onde todos os sentidos surgem e para onde provavelmente retornarão. Por isso o artista desenha a palavra como luz, como intervalo, fenda sobre um fundo escuro. A desconfiança que Ianês demonstra em relação à linguagem é fruto da compreensão de que tanto a palavra como as imagens não podem simplesmente traduzir sem equívocos pensamentos ou experiências externas a elas. A linguagem como instrumento, aquela que a ciência pretendeu empregar de modo preciso, exato e sem ambiguidades, não é a mesma empregada na poesia e na arte. O modo como o artista se coloca não é traduzindo pensamentos ou idéias, mas como alguém que do interior das coisas dá sentido a elas. O sentido do trabalho de arte não pode estar separado dele, tampouco num céu metafísico, num mundo ideal, fora da sombria caverna em que viveríamos, mas só pode ser encontrado no interior dele, sustentando por dentro o próprio trabalho.
Embora não seja um projeto deliberado do artista, seu trabalho pode proporcionar um contato com questões metafísicas e seus limites. Esses temas essenciais da filosofia, sobre as quais a linguagem segundo Ludwig Wittgenstein (1889-1951) não poderia dar conta, jamais deixaram de estar no horizonte do homem ao longo da história. O projeto de Maurício Ianês, ao interrogar o inexprimível e o inefável, nos mostra, como a própria filosofia contemporânea o fez, que se é possível uma metafísica ela estará primordialmente na arte e na poesia. O artista a apresenta de modo implícito e alusivo, ao filósofo caberia tentar elaborá-la filosoficamente, sempre num momento posterior ao trabalho do artista. Como se sabe, a coruja de Minerva, a própria filosofia, levanta vôo somente ao entardecer. Mas se algo pode nos dar acesso direto e imediato ao inexprimível será, portanto, a própria experiência com a arte.