Artistas

 . DETANICO LAIN

 
Marconi Drummond
Giselle Beiguelman
Jacinto Lageira

Um Dado Tempo Um Dado Lugar

Marconi Drummond (01/01/2008)

Detanico Lain – Museu de Arte da Pampulha – Belo Horizonte – Brasil

Quantas questões uma obra pode suscitar? Quando Leonardo da Vinci escreveu em um de seus cadernos que ‘arte é coisa mental’, talvez anunciasse precocemente o que estaria por vir nos séculos seguintes. Os trabalhos de A. Detanico e R. Lain reafirmam a independência da arte no campo filosófico – a arte é por si mesma um pensamento. Pensamento que se coloca no tênue limite entre o visível e o invisível e estabelece possibilidades de trânsito entre arte e ciência, entre textos, contextos e linguagens – tipografia, design gráfico, vídeo e arquitetura. Estruturas são desmontadas e remontadas, inquietações gramaticais tecem a forma e a palavra. Que olhos vêem (lêem) que mundo?

Em Zulu Time temos a correspondência entre letras do alfabeto e o sistema de fuso horário em que se divide o globo terrestre, redesenhando o mundo. Em Um dado lugar as placas de sinalização apontam para lugares localizados em diferentes fusos horários. Estados de (des)orientação neste constante estado de passagem em que vivemos. As geografias do mundo: fatiado, recortado e reconstruído.

Estamos no mundo da aceleração. O espaço-tempo está comprimido entre comunicação global e a quebra de barreiras geográficas. Mudar o ponto de vista nessa geografia tensa em que vivemos ao processar novos olhares sobre o mundo. Um dado tempo nos faz olhar do ponto de vista do pólo sul: relógios indicando a hora em diferentes fusos horários, cada um corresponde às letras que formam a frase ‘um dado tempo’.

O tempo, essa ‘sucessão de instantes acumulados’ após o outro, está inserido na obra Maré. Construído com camadas de vinil azul sobrepostas, invade as paredes transparentes do museu, possibilitando-nos procurar em um texto o outro e dissolver um texto em outro. Sobrepostas a`´agua da Lagoa da Pampulha, as marés tipográficas oscilam, sobem e descem, originando o texto que escorre.

Que olhos lêem (vêem ) que texto? Lemos ou apenas tateamos o mundo? A obra Braile Ligado configura-se como uma tipografia grafada com a luz a partir da escritura em braile.

O vídeo Flatland nos proporciona uma viagem de barco no delta do rio Mekong, Vietnã. A paisagem se revela lentamente na margem do rio planificada, estendida e fatiada em colunas de pixels. Somos tomados por música, vozes e sons de um rádio fora de sintonia.

Mover o mapa. No mundo não há mais lugar. As ideologias dissolvem-se nos frágeis limites do pensamento. Por meio de um gesto simples, utilizando um programa de edição de texto, o mundo alinha-se à esquerda, à direita ou ao centro? Fina ironia apresentada no vídeo O Mundo Justificado...

Montar, desmontar, realinhar, olhar sob outro ponto de vista, desconfigurar, escrever, ler... Afinal, que olhos vêem que mundo? Que olhos lêem que texto?

Marconi Drummond (curador) – Fabíola Moulin (coordenadora de Artes Visuais)