Artistas

 . MARILÁ DARDOT

 
Cristiana Tejo
Ivo Mesquita
Fernanda Lopes
Adriano Pedrosa and Rodrigo Moura

Escrita, afetividade e colaboração

Cristiana Tejo (08/05/2008)

“...Desde que existe como gênero literário, a filosofia recruta seus seguidores escrevendo de modo contagiante sobre amor e amizade.” Peter Sloterdijk

A obra de Marilá Dardot baseia-se em alguns pressupostos. Em primeiro lugar, apóia-se numa crença ferrenha na escrita como gatilho humanístico e afetivo que nos reposiciona diante de nós, dos outros e do mundo. O ângulo escolhido não resvala no esmiuçamento da linguagem e do discurso pelo viés estruturalista ou mesmo pós-estruturalista, mas na capacidade poética das fissuras, das pausas, da volumetria e da sensualidade do universo da escrita (o livro como objeto de desejo e de afeição, capítulos, espaçamentos dos textos, o sentido dos textos, coleções de palavras e de frases). Sua intenção me remete à introdução do livro Regras para o Parque Humano de Peter Sloterdijk, em que o autor pontua que “livros, observou certa vez o escritor Jean Paul, são cartas dirigidas a amigos, apenas mais longas”. E continua dizendo que essas cartas de amizade à distância são enviadas ao mundo muitas vezes sem destinatários precisos e podem chegar até mesmo aos que ainda nem nasceram. O remetente tem consciência de que o envio dessas missivas tem o poder de multiplicar indeterminadamente oportunidades de estreitar amizade e essa relação entre escritor e receptor representa um caso de amor à distância. “Isto exatamente no sentido de Nietzsche, que sabia que a escrita é o poder de transformar o amor ao próximo ou ao que está mais próximo no amor à vida desconhecida, distante, ainda vindoura”, finaliza Sloterdijk. Marilá evoca a incomensurabilidade da vida espelhada neste universo.

Em Rayuela, trabalho de 2005 inspirado no livro O Jogo da Amarelinha (1963), de Julio Cortázar, a artista trama um diálogo com a obra máxima deste autor argentino. Como se sabe, o enredo foca-se mais no livro do que propriamente na vida dos personagens. A leitura dos capítulos pode ser feita salteada e novos caminhos podem ser percorridos na construção de entendimentos, como se propõe o jogo citado no título. Marilá estrutura uma narrativa pelo deslocamento do texto, que é suprimido em quase sua totalidade, sobrando apenas as passagens em que é descrito um deslocamento espacial e as páginas e capítulos.

O segundo pressuposto de sua obra aponta para o compartilhamento, o arquivamento e a generosidade como partícipes da formalização de seus trabalhos. Em vários momentos de sua trajetória, Marilá Dardot ativa a colaboração como fundamento do afeto e da escrita. Uma das primeiras vezes em que esse aspecto aparece é na obra O Banquete (2000). A artista toma a obra de Platão que versa sobre o amor como o mote do trabalho. Ela pede a amigos que enviem um texto de sua preferência sobre o amor. As fontes escolhidas são as mais diversas. O conjunto arregimentado é impresso em folhas de acetato transparente e encadernado para formar um novo livro. Ao serem sobrepostos, os textos causam uma polifonia ensurdecedora e conseqüentemente, incomunicabilidade. Em Biblioteca de Babel, instalação composta por redes, caixotes, plantas, esteiras, almofadas e livros, Marilá constrói uma biblioteca provisória, um local de leitura confortável e informal em que as pessoas podem ler pelo tempo que quiserem. A coleção que se encontra à disposição é formada por livros “doados” temporariamente por amigos, visitantes, desconhecidos, ou qualquer um que atende ao chamado da artista. O convite é feito alguns dias antes da abertura: “Há algum livro que você gostaria de compartilhar com o mundo?”. Ao serem recebidos, os livros são fichados e carimbados, como um símbolo de pertencimento intangível e eterno a esta Biblioteca “que pode conter todos os livros do mundo” , a exemplo do conto Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, outro autor argentino de suma importância para a inventividade da escrita no século XX. Esta biblioteca interminável, infinita, eterna, ilimitada e periódica é uma metáfora do prazer e angústia da incomensurabilidade do conhecimento humano. Ao final de cada etapa da exposição (que ocorreu em São Paulo e no Recife), os livros eram devolvidos aos donos e deixavam sua marca indelével neste arquivo in progress.

A atitude artística de Marilá Dardot aponta para o reavivamento de um outro tempo: de suspensão, de doação, de afeto, de contemplação, de degustação no mais amplo sentido, de humanidade, em suma. É um contraponto a uma sociedade do desapego, do descartável, do imediato, da histeria, do medíocre e do individualismo.