Artistas

 . LIA CHAIA

 
Lucio Agra
Edson Passetti
Agnaldo Farias

Anônimo

Lucio Agra (01/09/2010)

Na vertigem de indecisão que compõe o que chamamos contemporâneo, uma coisa, pelo menos, vem sendo vista com razoável unanimidade: a centralidade do corpo – o nosso corpo, o corpo de cada um – como alvo de todos os interesses.

A pergunta seguinte, que não quero responder aqui, é se o corpo ressurge porque luta numa guerra contra uma “virtualização” de suas propriedades, se é a sua “constância” que encanta ou se, paradoxalmente, tendo sido o recurso para confrontar a comodificação das obras de arte, nos anos 60 e 70, ele seria agora o objeto-fetiche em si mesmo.

O que Lia Chaia está se propondo destacar escapa, na minha opinião, desse fácil esquema de pensamento. Pois não é de hoje que ela se envolve, em seu trabalho, com o que o corpo – o seu corpo – tem potência de sugerir. Em 2001, do aproveitamento do fôlego em “Big Bang” até os atordoantes 51 minutos de “desenho-corpo” - a documentação de uma performance que a consagrou como um novo nome singular no panorama das artes recentes – era possível notar que a carne e a pele, rabiscada de caneta bic, desfocada, em diálogo com a representação humana da terra ou com um sorriso-aplique no rosto, era seu alvo. No ano seguinte, isso ficou nítido na série “Experiências com o corpo” e “com a sorte dos que gozam”. Nesse último, o esqueleto, agora novamente aqui (talvez nunca exilado, então) se masturba sugerindo o humor e a ironia como os outros traços fundamentais de sua obra.

Daí por diante as investigações iniciais se desdobraram em intercâmbios de significação dos quais um bom exemplo é “Rodopio” (o vídeo) que documenta processos que geram a coluna de bambolês em 2009. Se não é tudo necessariamente função do corpo, tudo passa por ele, seja para vesti-lo (como em “Setamanco”) seja para encontrar sua, por assim dizer, “segunda natureza”, a pele dos ossos nos vegetais que constituem a “padronagem” da “Série Esqueleto” (do mesmo ano). Igualmente, este mundo vegetal pode ser engolido/incorporado (“Comendo paisagens”, 2005, “Folíngua” 2003) e aquilo que vem a ser, em São Paulo, seu inverso anulador, a arquitetura, passa a compor a coluna vertebral (“Coluna” 2003 ou “Minhocão” 2006). Poucos artistas traduziram tão bem esse dilema da megalópole em que vivemos (me ocorre um, pelo menos, León Ferrari, nas suas séries feitas com padrões de Letra Set para arquitetura).

Além disso, assim observados, os trabalhos de Lia Chaia, conversam entre si horizontalmente, desfazem a mera sucessão cronológica e demonstram um ir e vir constante aos mesmos temas (a paisagem, o verde, os corpos humanos, os animais, a geografia, os lugares) o que engendra sua voz peculiar, como os castelos na areia, tortos e informes (2002) que dialogam com os jardins que mudam de lugar (“Mudança de Jardim”, 2008) ou os vasos comunicantes, os flui -dos, as seivas e as ramificações que proliferam ao longo desta primeira década do século 21.

Implodido, o esqueleto vegetal se abre à parede como feixe de fragmentos (a chuva, outro dos temas constantes). O corpo que antes se recobrira de formigas (uma citação a Zé do Caixão?) hoje cobre-se de olhos, graças do ver a ser vistas, ou de penas-músculo (força suprema e máxima leveza). Nestes 10 anos, o vocabulário de Lia Chaia rendeu, se expandiu e ganhou a dimensão da espinha dorsal, corpo que se sustenta em pé, sob sua amplificação (a figura de linguagem mais expressiva do épico). Agora que o ínfimo, o fruto dos fluidos e das células, ganha proporção em sua barriga, expande-se, em simultâneo, na sua obra, o desmesurado. O gigantesco toma forma de signo da vida.

Estamos, pois, diante das questões do século que se inicia e da vida que se renova. Estamos ouvindo a voz forte de uma artista que pergunta constantemente as mesmas coisas: o que há de ser de nós, no meio disso que herdamos? Não é uma pergunta nova, é talvez a grande indagação de todos os artistas. Entretanto é certamente isso que faz deles os intercessores pelos quais entendemos o dilema de cada um anônimo ser que somos.

Lucio Agra - Poeta, ensaista, performer, professor da Graduação em Comunicação das Artes do Corpo da PUC/SP, acaba de publicar MONSTRUTIVISMO - reta e curva das vanguardas (ed. Perspectiva).

Texto criado para a individual Anônomi de Lia Chaia. Galeria Vermelho, Set/2010.