Artistas

 . CADU

 
Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale
Fernando Cocchiarale
Alexia Tala
Maria Iovino

Projeto Migrações

Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale (01/01/2002)

Nada parece aproximar o trabalho de Cadu do de Lúcia laguna. Se o primeiro é gráfico, preto e branco, gestual, isto é investiga a temporização do espaço, o segundo é pictórico, em cores e pensado, quer dizer, pesquisa a espacialização do tempo. No entanto essas oposições resultam de uma visão unilateral destes trabalhos. Tantas são as questões que os separam, quanto as que os aproximam. Sua principal afinidade, no entanto, é a de discutirem uma mesma e ancestral questão da arte, a paisagem, ainda que lançando mão de meios muito diversos e obtendo resultados visuais quase opostos. Esse interesse comum de Eduardo e Lúcia impregna o espaço agora por eles partilhado e, com isto, empresta sentido ao seu provisório encontro num único espaço.

O título dado por Lúcia laguna ao conjunto de pinturas desta série, Entre a Linha Vermelha e a Linha Amarela, não deixa dúvidas. Indica-nos que estes trabalhos tem origem na vista descortinada de sua casa em São Francisco Xavier, próximo à Tijuca: ao fundo o morro da Mangueira, antes dele os edifícios, telhados, um trecho da Linha Vermelha, atrás, invisível mas presente, a Linha Amarela. No entanto Lúcia não toma a paisagem enquadrada pelas janelas de sua casa como um modelo naturalista. Ela a perscruta por meio de seu olhar atento e observador, mas poético. Lenta e por vezes velozmente desloca-se por sobre telhados, prédios e espaços e parte para um sobrevôo onde nada mais parece demovê-la.

Percebe-se que nada em sua pintura é arbitrário, isto é, o acaso, ali, não se dá por meio de meros jogos combinatórios ou permutáveis, tão freqüentes na pintura. Ela o exerce (o acaso) para poder apontar, encaixar, permitindo que se possa entrever certas arestas e vestígios de suas indecisões anteriores assumidas como uma questão importante para a ordem sensível dos trabalhos. Por isso nas pinturas de Lúcia Laguna partes parecem se afastar, quase ilusoriamente, através de passagens no interior destes espaços, nichos, ou se aproximar pelas densas camadas cromáticas de uma materialidade essencial da pintura. E, como num julgamento, tudo vai sendo aos poucos ocupado ou desocupado, removido ou trazido de volta, resgates onde ela quer ser a mais justa, a mais implacável possível, na sua relação com os elementos envolvidos nesses processos.

Apesar da predominância linear horizontal (listras, retângulos e demais elementos geométricos) necessária para preservar o espaço ocidental consagrado à paisagem, estes trabalhos evocam o rigor da abstração informal e podem ser a ela genealogicamente remetidos: o modo como são engendrados os problemas, intencionalmente mas com surpresas; as possibilidades de solução pelo tratamento expressivo; a estruturação do espaço feita a partir de algumas diretrizes prévias, mas centrada no processo. Entre a linha vermelha e a linha amarela produz-se o hiato necessário para a mediação poética entre a paisagem urbana real e concreta, e as paisagens somente pictóricas pacientemente trabalhadas por Lúcia Laguna.

Para o projeto Migrações Cadu criou um sistema mecânico que registra as vibrações provocadas pelas irregularidades do calçamento das ruas ao longo de percursos pré-determinados. Semelhante a um sismógrafo este aparelho pode ser, por exemplo, instalado no interior do porta-malas de um automóvel, embora já tenha sido também usado em outros meios de transporte (como ônibus, trens, barcos) de diversas cidades. Presa à tampa do porta-malas, conforme declaração do próprio artista “pende uma peça composta por uma pequena base de madeira e uma única mola, prolongada em uma de suas extremidades por um tubo oco de alumínio, que abriga, em seu interior, um lápis em grafite maciço. Esse lápis toca o centro de um papel repousado sobre a primeira estrutura”. Durante o deslocamento do veículo o lápis vibra e grafa, por acúmulo, no centro de um mesmo papel colocado na base do porta-malas, o tempo transcorrido em trajetos que vão de 100 a 1000 Km.

O resultado aleatório dos registros, independente da vontade e do gesto artístico de Eduardo, parece por um lado não combinar com a precisão que nossa cultura técnica espera de um aparelho, por outro lado, os grafismos que dele resultam, sugerem a expressão poética de um sujeito que, ausente da produção efetiva dos desenhos, na qual é substituído por um mecanismo, restringe-se à autoria da idéia. Como se agindo entre a farsa e a verdade, entre a subjetividade e o mecanismo, Cadu permitisse a emergência de aspectos inexoráveis do desenho tanto em seu aspecto autográfico, como no diagramático e no conceitual.

Ao utilizar meios emprestados de outras disciplinas, como o seu método de registro estatístico, e agentes extra-artísticos, tais como o percurso de diversos meios de transporte, o artista confronta-nos, aqui, com padrões a respeito dos quais não temos referências ou parâmetros anteriores. Mas se o desenho é uma forma de escrita cujos instrumentos são linhas, marcas e espaço, reconhecemos nestes resultados seu ato essencial. Metáforas do espaço e do tempo, os gráficos criados por Eduardo Costa ampliam o campo de possibilidades da paisagem na arte contemporânea.