Artistas

 . CHIARA BANFI

 
Lisette Lagnado
Arthur Nestrovski
Lisette Lagnado

A viga mestra e o coelho de Chiara Banfi

Lisette Lagnado (03/01/2005)

“Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é fixo e eterno.”
Livro do desassossego, Fernando Pessoa

Quando Chiara Banfi veio me apresentar seu projeto de exposição para a Galeria Vermelho, como é de meu costume, levantei mil problemas, mas o ceticismo maior residia na sua vontade de fazer a viga mestra do mezzanino “descer e girar” (no âmbito mental, é claro, e não físico) e “abraçar o lugar com o desenho”. Conheço aquele espaço expositivo quando ainda eram três casas geminadas. Depois da reforma, o ponto de sustentação do edifício conta, além da viga original, com cinco tesouras de madeiras que saem para as laterais e constituem a armação do telhado. Do ponto de vista de quem olha de baixo para cima, esta treliça obstrui o efeito sobressalente da trave principal. Deixei que as perguntas mantivessem uma tensão no ar.

Como fazer um texto crítico simultaneamente à criação artística, isto é, a partir de um objeto da ordem das idéias, ainda invisível, que não seja a descrição fria de um resultado que qualquer observador terá capacidade de enxergar uma vez pronto? A tarefa do crítico passa pelo comentário (requisito menos evidente que parece), e depois? Já a busca da interpretação exige, no caso da arte contemporânea, uma ciência de andar tateando no escuro. Chegaremos mais ou menos juntas, Chiara e eu, ela na galeria, eu na gráfica, cegas uma da outra. Porém, não tão cegas assim.

Como poucos artistas de sua geração, Chiara Banfi construiu um repertório próprio, caracterizado por uma linha espontânea, que se dilata em elementos celulares; soltas no espaço, seriam bem-aventuradas conversas com os móbiles de Calder. Ser reconhecível por uma unidade formal é uma faca de dois gumes: ao passo que representa uma conquista, pode sinalizar um acanhamento de experimentar uma façanha fora do território assegurado. Mas não contente de possuir um traço inconfundível, Chiara se deixa guiar pela curiosidade, o que lhe valeu a transição de uma pintura sobre parede para uma ocupação ambiental.

O desenho de Chiara desencadeou-se a partir de uma viagem na Amazônia, do contato com os vestígios de civilizações indígenas e de seu vínculo com os fenômenos da natureza, o campo racional sendo ativado pelo espiritual. Há uma dimensão “mágica” sempre presente nos depoimentos de Chiara, cujo caráter transcendental me trouxe à memória o Kandinski da liberdade com equilíbrio, da pintura integrada à musicalidade. Sua apoteose teve lugar o ano passado em Brasília, com “Várias marés”, primeira individual da artista. Águas e nuvens foram penetrando e saindo de oito escalas de cinzas. Pode-se até dizer que a lenta metamorfose de Chiara adveio de uma onda que prenunciava um surrealismo latente, mas encontrou estabilidade numa espécie de abstração, em que a terceira dimensão corresponde a um plano ideal a ser cautelosamente cerceado. O mundo material, a realidade tal como ela se apresenta, não parece seduzir esta artista.

Ontem, quando cheguei na galeria, a viga já tinha sido posta abaixo. Somente com a força da cor verde. Junto com Calder, era possível distinguir uma tangente em direção às formas de Leda Catunda (gotas, línguas, barrigas). As estruturas de madeira recortada exibiam o contorno de um “cheio” que lhe fora extraído, cada qual mantendo sua autonomia. O desenho em vinil colado ainda não tinha entrado, esperando o fim da fase de lixar e polir que levanta muito pó; nem a trilha do grupo “minima”, que deverá gerar uma impressão de chuva constante lá fora. Quanto ao mezzanino, de repente eu o vi resumido a uma ombreira rudimentar. Além da viga mestra, uma viga líquida, entornada ou embriagada, transborda das paredes ao chão. A viga desceu e há uma viga que quase sobe, inflada pelo desenho. Esta mesma viga, alongada no piso, atrapalha a passagem. Uma viga-obstáculo que certamente propiciará tombos aos distraídos, e dessa desatenção, creio, há de surgir um apuro dos sentidos. O ambiente consegue influir sobre a circulação do público, que vai “evitar” transpassar um muro virtual erguido do simples rebatimento de uma trave que agora divide o espaço.

A função da arte, para Chiara, ainda é próxima do momento em que o sol bate nas folhas e tem a potência de levar o visitante para um outro lugar. Como o coelho de Alice…

Lisette Lagnado, janeiro de 2005

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Interessante observar que a Galeria Vermelho apresenta, na mesma época que a exposição da Chiara, uma instalação inédita, sobre a casa, da fotógrafa Claudia Andujar, conhecida por seu trabalho com os índios Yanomami.
Cf. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (p. 487).
Palavras da artista durante um de nossos encontros.