Artistas

 . ROSÂNGELA RENNÓ

 
Márcio Seligmann-Silva
Nancy Dantas
Marcelo Campos
Elizabeth Matheson
Stella Senra
Elizabeth Matheson
Felipe Chaimovich
Lisette Lagnado
Moacir dos Anjos
Annateresa Fabris
Annateresa Fabris
Dan Cameron
Ivo Mesquita
Ivo Mesquita
Adriano Pedrosa
Adriano Pedrosa
Dan Cameron
Jacopo Crivelli Visconti
Moacir dos Anjos

Rosângela Rennó

Márcio Seligmann-Silva

Hoje podemos falar de uma desaparição da fotografia. Trata-se de uma desaparição paradoxal, de algo que justamente foi criado para registrar o que potencialmente logo desaparece. A fotografia em papel guardava uma presença, uma densidade que foi e é muito explorada pelas artes plásticas. As potencialidades artísticas da fotografia analógica certamente nunca foram tão exploradas antes da fase de sua desaparição. É como se, diante de seu fim, a fotografa analógica se tornasse ainda mais eloqüente como uma metáfora ambígua de nossa memória, que é sempre inscrição da presença e de seu apagamento. Decerto já possuímos muitas grandes obras de arte na base digital, mas o princípio da fotografia analógica ainda deverá produzir muitas grandes obras também.

Muitos elementos da fotografia tradicional são abalados, em menor ou maior escala, pela foto digital. Por exemplo, a questão dos direitos autorais. Sabemos como este tema já era complicado na era da fotografia analógica. Mas, com o tempo, desenvolveram-se procedimentos de garantia de respeito à autoria das imagens. Com a fotografia digital, que só pode ser compreendida com a paralela abertura do universo da web, esta questão ganhou uma dimensão inaudita. Além da facilidade de manipulação e de multiplicação das imagens, a incrível capacidade de circulação delas acrescenta mais uma dificuldade para se controlar os direitos autorais. Na era digital a autoridade do fotógrafo é posta em questão. Esta autoridade também é abalada pela fantástica democratização dos aparelhos fotográficos. Todos agora somos fotógrafos, e com isso se indica não apenas que somos agentes da fotografia enquanto manipuladores e agentes na sua circulação: todos atuamos na própria captação das imagens. Uma criança de cinco anos já possui hoje sua primeira câmara digital. Além disso, a câmara digital, na medida em que nos possibilita um acesso imediato às imagens capturadas e como não depende de sua tradução para um meio duro, propicia uma multiplicação do próprio ato de captura de imagens. É uma banalidade afirmar que fotografamos muito mais na era digital. Se esta multiplicação quantitativa significa uma elevação qualitativa é uma questão ainda a ser respondida. Esta multiplicação quantitativa pode ser explicada não só pela facilidade técnica, mas também por uma necessidade quase que patológica do indivíduo contemporâneo de registrar tudo em imagens. “Glorifier le culte des images (ma grande, mon unique, ma primitive passion)”, escreveu Baudelaire. Estas palavras caracterizam também o indivíduo contemporâneo com sua sede de construir uma casa em um mundo onde tudo se liquefaz. Como suas imagens também são líquidas ele não pára de inscrevê-las. Nossa era de museus e de arquivos é uma filha de nosso descolamento com a tradição e, mais recentemente, de nossa crise dos limites do próprio humano.

O projeto de Rosangela Rennó, A última foto, propõe um diálogo crítico com essa passagem da era analógica para a digital. A idéia de convidar 43 fotógrafos para fotografar o Cristo Redentor no Rio de Janeiro pode ser interpretada como um verdadeiro ritual de despedida da foto analógica. Esta poderá até se perpetuar, como também muitos ainda hoje preferem escrever em antigas máquinas de escrever. Mas é claro que a virada digital já ocorreu. A exposição, por sua vez, reúne essas fotos ao lado das câmaras que as captaram, formando dípticos, como descreve Rosangela. A câmara já se apresenta assim como peça de museu. O fato do objeto escolhido ser um monumento é digno de nota. A fotografia analógica manifesta assim um desejo de eternidade, diante da ameaça nascida da fotografia digital. Esta, no entanto, “fagocitará” com tranqüilidade as fotos analógicas da exposição, assim como os seus textos. A revolução digital incorpora o passado no seu presente perene, no tempo-lugar da web, onde, para o bem e para o mal, não sabemos mais diferenciar o virtual do real.