Artistas

 . GABRIELA ALBERGARIA

 
Mark Gisbourne
Ivo Martins
Delfim Sardo
Delfim Sardo
Joana Neves
Mark Gisbourne

Debaixo de um céu artificial - Under an Artificial Sky

Mark Gisbourne (24/09/2006)

O trígono Artifício-Razão-Natureza pode parecer-se, talvez, com uma estranha confluência de proposições contrárias e não imediatamente relacionáveis. Mas o trabalho criativo de Gabriela Albergaria procura sempre reconciliar o que, à primeira vista, poderia sugerir os aspectos contrários da arte e da natureza. A sua instalação de projecto actual, com base na Pfaueninsel (Ilha dos Pavões), no Wahnsee, perto de Berlim, é mais uma vez uma destas intervenções subtis, bem como uma proposta atraente. Gabriela Albergaria procurou frequentemente expressar questões relacionadas com o Jardim Iluminista – um produto do artifício e da realidade – tal como foi mediado através dos estágios subsequentes de manifestação industrial e pós-industrial. O projecto Pfaueninsel inicia-se no local da Casa das Palmeiras (destruída por um fogo em Maio de 1880), que foi construída pelo arquitecto Albert Dietrich Schadow (1797-1869). Filho de Friedrich Gottlieb Schadow (1761-1831), director de obras públicas e comissário da construção de palácios, tornou-se discípulo de Karl Friedrich Schinkel (1781-1841), que conheceu e com quem trabalhou na realização dos Novos Pavilhões no parque do palácio de Charlottenburg, em 1824-25. De seguida, Albert Dietrich Schadow executou a Casa das Palmeiras, na Pfaueninsel, entre os anos de 1829-31, seguindo de perto um desenho de Schinkel. Existem ainda algumas pistas de como seria a Casa das Palmeiras, como gravuras e uma pintura do seu interior, esta última datada de 1832-34 e executada pelo artista Carl Eduard Ferdinand Blechen (1798-1840), nascido em Cottbus. Os aspectos relevantes para a artista são a utilização de estruturas de ferro e vidro, algo que lança a aparência de uma realidade pseudo-natural no interior de enquadramento do início da era industrial. Neste sentido, a Casa das Palmeiras representava um exemplo precoce da interface entre a indústria e a natureza.
O desenvolvimento de estruturas como a Casa das Palmeiras e de estufas tipificou a novíssima industrialização da natureza que ocorreu no século xix, com as suas interfaces artificiais e elementos pseudo-naturais. A própria Pfaueninsel, e como extensão as paisagens e os ambientes de jardins do século xviii, elaboram uma noção semelhante de falsa natureza. Isto é articulado através da história e construção de edifícios dispendiosos e inúteis (pseudo-edifícios que podem ser encontrados na Pfaueninsel), nos quais as alusões ao passado eram crescentemente colocadas sob a rubrica de um quadro extravagante ou, mais tarde, do diorama à escala (o termo foi primeiro utilizado por Louis Daguerre em 1822). Esta apetência pelo exótico transformou-se no Orientalismo exacerbado de meados do século xix, mas a Casa das Palmeiras também esteve aliada aos desenvolvimentos, nos séculos xviii e xix, de locais como o Jardim Botânico e o Jardim Zoológico de Berlim (com origem em 1679 e 1844 respectivamente). Albergaria ocupa-se assim de uma matriz complexa de ideias interrelacionadas que não só jogam com a naturalidade do artificial mas também de como o processo de naturalização do artifício tem lugar através da adaptação de plantas e ambiente. Porém, os seus trabalhos têm de ser lidos através da linguagem da arte, e não especificamente pela linguagem da ciência, apesar de a artista nunca negar explicações científicas que possam existir. As questões colocadas por Albergaria permanecem em aberto. Será que aquilo que foi formado e concebido artificialmente se torna cada vez mais natural para a disposição psíquica do uso que fazemos da consciência moderna? Como resultado, e dada a natureza das diversas plantas que uma vez existiram na Casa das Palmeiras, testam-se os temas da transplantação e do colonialismo. E, por sugestão subsequente, também um complexo de processos históricos, sociais e políticos são sublinhados através do seu desenho e instalações fotográficas. O facto de que ambientes de plantas se adaptam ao longo do tempo confere uma sensação de realidade ficcional àquilo que nasceu do artifício.
Gabriela Albergaria, em todas as instâncias, segue o padrão da pesquisa histórica e do desenvolvimento, e assim o seu conhecimento e a história documentada da Casa das Palmeiras na Pfaueninsel é um aspecto dado da sua produção. Mas a verdadeira origem da ideia por detrás de Under an Artificial Sky está também ligada a trabalhos anteriores, como é o caso de Cestos, mostrados primeiramente no seu projecto Collect, Transplantar, Coloniser, no Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 2004/2005. Estes cestos têm uma história associada à transferência de plantas dos seus locais originais (por vezes exóticos) para ambientes construídos artificialmente na Europa – como é o caso da Casa das Palmeiras na Pfaueninsel. Assim, funcionam como uma metáfora do transplante baseando-se nos cestos originais primeiro concebidos pelo famoso botânico e jardineiro francês Thouin, do Jardin des Plants, de Paris – os quais foram utilizados na expedição realizada com Lapérousse (1785-1788). Mas mais que isso, e visto que são eles próprios feitos de matéria vegetal, multiplicam-se como forma de referência à adaptação e a hibridação das plantas. Também nos lembra temas como a enxertia, os quais também surgem frequentemente noutras peças do corpo de obras de Albergaria.
O projecto Under an Artificial Sky começa assim com a referência aos cestos que formam parte da instalação. No entanto, os principais aspectos são os desenhos de grande escala feitos com lápis de cor e desenvolvidos em várias partes (280 x 400 cm), deliberadamente a base de uma paisagem ficcionada. Estes são acompanhados por desenhos que mostram uma variedade de motivos vegetais ornamentais utilizados na arquitectura. Neste caso encontramos uma justaposição imediata da paisagem artificial, que é colocada junto às abstracções hieráticas e estilizadas de palmeiras. A industrialização de motivos exóticos e livros de padrões teriam uma enorme influência sobre a arquitectura do século xix. Nas paredes da instalação encontra-se também uma série de textos, uma abordagem utilizada anteriormente na sua galeria de Lisboa, e numa exposição recente na Fundação Gulbenkian em Paris. Referências a Goethe e à taxonomia botânica aplicam-se, mas na realidade estas citações expõem intenções colonialistas dissimuladas por detrás da obsessão oitocentista com as estufas de vidro e da sua aplicação e utilização ao serviço da industrialização. Apenas precisamos de pensar no último mas legendário Palácio de Cristal onde decorreu a Grande Exposição em Londres, em 1851. Aparte o conteúdo exótico, a apropriação e o transporte de plantas para a Europa foi principalmente económica, revelando quase exactamente as mesmas motivações da exploração e transporte de seres humanos a partir das colónias. Na qualidade de artista portuguesa, Albergaria está bastante ciente do papel do seu país no colonialismo. Uma das citações revela a questão mais explicitamente "O uso económico dos vários tipos de palmeiras pelas potências coloniais foi uma razão importante para a sua inclusão nas colecções botânicas e jardins de Inverno do século xix." Apesar da escala da Casa das Palmeiras ser modesta 109' x 46' x 46', a natureza da tradução e do uso adaptado integra uma história escondida e revela muitos motivos esquecidos que frequentemente se encontravam por detrás da industrialização da natureza, sendo familiarmente expressos através do paisagismo artificial e dos ambientes relacionados com jardins.
Apesar dos trabalhos-projectos de Gabriela Albergaria sugerirem sempre uma intervenção suave, vistos mais de perto revelam um conteúdo distintamente subversivo, "o visitante frequentemente ficava com a impressão de que o seu país tinha tomado posse de continentes cheios destas palmeiras…." O conteúdo artificial de como a mente moderna compreende o que é natural é posto em causa em todos os seus trabalhos, tal como é a característica apelativa de como estas formas de plantas se adaptam a si próprias ao novo ambiente e habitats da colonização botânica. Lembramo-nos um pouco de Gregor Mendel (1822-1884) – frequentemente considerado o pai da genética moderna – e do seu famoso texto 'Experiências na Hibridização de Plantas' (1865). Assim, uma inteira plataforma de ideias associativas emerge destes desenvolvimentos precoces do exoticismo económico. A industrialização da natureza, a sua origem artificial, cria uma jangada de associações em deriva. Não é minha intenção sugerir que Gabriela Albergaria insinua todas estas avenidas como explicitamente intencionais, mas que, como todos os artistas, a questão da forma e da função é inevitavelmente trazida ao de cima. Assim, as fotografias/desenhos que também fazem parte da instalação, e que derivam do Jardim Botânico de Berlim-Dahlem, são dedicadas a temas de geografia botânica. Na verdade, apesar de os mencionar por último lugar, estes formam a chave para todo o restante conteúdo do projecto. Uma chave porque são primariamente e deliberadamente artificiais (um desenho de uma artista praticando artifício) e mecânicos (a câmara como dispositivo de registo). O Iluminismo e a ciência moderna são supostamente movidos pela razão, mas o caminho é também profundamente enraizado no artifício e na natureza. Gabriela Albergaria, ao olhar de perto para as aspirações do passado – a perdida Casa das Palmeiras da Pfaueninsel – conseguiu abrir uma relação de ideias que mostram que o trígono artifício-razão-natureza está longe de ser dissonante e que os três estão até demais interrelacionados.