Artistas

 . CARLA ZACCAGNINI

 
Kiki Mazzucchelli

C. ZACCAGNINI BIFURCAÇÕES E ENCRUZILHADAS: EPISTEMOLOGIA E ACASO

Kiki Mazzucchelli

Dejo a los varios porvenires (no a todos) mi jardín de senderos que se bifurcan.

Em 2004, o artista alemão Gregor Schneider realizou o trabalho Die Familie Schneider, em que ocupou duas casas vizinhas e idênticas no bairro de Whitechapel, na região leste de Londres. É neste mesmo bairro pouco abastado, com suas construções baixas, casas de tijolo, e ruas labirínticas e estreitas, que centenas de turistas desembarcam em meses de clima mais ameno para uma visita guiada pelos locais onde o lendário Jack, o Estripador, cometeu seus assassinatos. Nada comparável, imagino, à sensação de violência experimentada pelos visitantes das famílias Schneider. Reproduzidos com exatidão em cada uma das casas, os detalhes de cada cômodo eram mundanos: as mesmas bitucas de cigarro no cinzeiro em uma sala sombria, a pilha de doces industrializados no centro de uma câmara sem mobílias ou janelas e o portão para crianças que bloqueava a entrada do sótão. Durante um período de quase três meses, estas casas foram habitadas por pares de gêmeos idênticos que executavam as mesmas tarefas, cada um em cômodo análogo na casa vizinha. Desde as ações corriqueiras, como a mulher que lavava a louça na cozinha, até as mais perturbadoras, como o homem que se masturbava atrás da cortina do banheiro ou a criança deitada na cama com a cabeça e o torso cobertos por um saco de lixo no quarto, tudo se repetia de maneira quase indistinguível na casa adjacente, como um pesadelo recorrente.

A idéia de diferença e repetição, embora com uma abordagem distinta, é um assunto que interessa a Carla Zaccagnini há algum tempo, e que ela vem desenvolvendo na série Bifurcações e encruzilhadas. Sobre la igualdad y las diferencias: A casa ao lado é o resultado de um projeto realizado na Bélgica em 2006. Nesta ocasião, a prefeitura de Assenede, Flandres, estava empreendendo a compra de todas as casas de uma das ruas da pequena cidade, uma ou duas por ano. Nesse meio tempo, até a finalização deste processo, as casas adquiridas eram mantidas fechadas, os pertences abandonados pelas famílias intocados. Este foi o ponto de partida para uma escavação arqueológica organizada por Zaccagnini, em que duas arqueólogas foram recrutadas para examinar e classificar os objetos deixados em duas dessas casas segundo os princípios de sua disciplina, mas buscando artefatos similares. A artista explica que “Por um lado, estava interessada em saber quais seriam os critérios de semelhança usados por elas e, sendo antropólogas acostumadas a ver objetos como índices de atividade humana, na maioria dos casos elas os agrupavam com base em seu uso e função. Por outro lado, me interessava saber o que estas duas famílias, que haviam morado lado a lado durante o mesmo período tinham em comum ou, melhor, haviam tido em comum e decidido deixar para trás.”

Em outro trabalho da mesma série, Sobre la igualdad y las diferencias: Casas gemelas, realizado em Havana em 2005, Zaccagnini fotografou diversas casas originalmente idênticas, mas que foram modificadas ao longo do tempo por seus habitantes. Apresentadas como pequenos conjuntos, essas fotos revelam uma vontade de diferenciação irrefreável, num gesto que se torna ainda mais significativo dentro do contexto político cubano. De certa forma, esse é um trabalho emblemático da capacidade da artista de identificar certas estruturas existentes no mundo e, por meio de um jogo que delicadamente desestabiliza nossa percepção passiva das coisas, nos fazer olhar mais uma vez e seguir o caminho sugerido que leva ao questionamento da veracidade ou validade destas próprias estruturas. Questionadores, porém nunca panfletários; assim são seus trabalhos, pois não pretendem oferecer respostas prontas, mas sim examinar aquilo que é prontamente aceito como conhecimento ou, talvez, nos oferecer pistas que nos levam a pensar sobre como o senso comum é construído. Para tanto, a artista utiliza elementos tão distintos como o espaço expositivo da galeria onde se realiza esta exposição quanto a linguagem como ferramenta de representação de conceitos. Em Uma e três casas a configuração original do edifício que abriga a Galeria Vermelho é revelada pela projeção do levantamento das construções anteriores sobre a fachada e através da prospecção arqueológica no verso da mesma parede. Por sua vez, os desenhos que compõe a série Todas las descripciones son comparativas: grandes felinos, selecionando de descrições tiradas de uma enciclopédia de animais os trechos dos verbete que se referem a características de um outro grande gato do grupo – sem nunca realmente definir o bicho em questão – colocam em cheque a capacidade de representação da linguagem, que acaba por se anular em uma espiral tautológica.

É possível imaginar que esta vontade de entender o mundo esteja de alguma forma ligada ao fato de que Zaccagnini passou os últimos anos praticamente em trânsito, realizando residências e exposições. Em cada cidade, uma língua diferente, uma arquitetura diferente, diferentes estruturas sociais, políticas, institucionais. Cada trabalho, de maneira única, é o resultado de um encontro fortuito com uma determinada situação ou um determinado lugar. Nesse sentido, o acaso, fator proeminente em muitos dos trabalhos da artista, não é apenas um dado divertido; é um elemento inseparável de uma prática que se abstém de funcionar num plano puramente especulativo, partindo sempre de uma vivência, de relações e situações cotidianas, trazendo-as para dentro de um discurso artístico generoso, que gentilmente solicita que não sejamos apenas observadores. Assim, é necessário enveredar-se pelas bifurcações e cruzamentos propostos nesta mostra, que se estendem muito além dos objetos aqui expostos.