Artistas

 . ANA MARIA TAVARES

 
Tadeu Chiarelli
Martin Grossmann
Teixeira Coelho
Lisette Lagnado
Ana Maria Tavares

Os Noturnos de Ana Maria Tavares

Tadeu Chiarelli

A série de trabalhos que Ana Maria Tavares mostra em sua individual no Centro Cultural São Paulo sugere algumas questões que, se por um lado, demonstram a coerência da trajetória da artista, por outro apontam novas possibilidades para sua poética e compreensão da mesma. Neste texto busco apenas pontuar algumas dessas questões que me ocorreram quando sofri o impacto diante de Noturnos sem ter, evidentemente, a pretensão de esgotá-las.

Noturnos (da série Caça-palavras) apresentam-se como costuma se apresentar a maioria dos trabalhos de Ana Maria Tavares: entre uma modalidade artística e outra, configurando sempre um território de intersecção entre esses territórios já institucionalizados.

Se no início da carreira ela apresentava pinturas que funcionavam como esculturas ou, pelo menos, como objetos de instalação; se, em seguida, mostrou objetos que literalmente transitavam entre o conceito de escultura e aquele de design; se, na seqüência, desenvolveu trabalhos que pareciam conscientemente indecisos entre a realidade da arte e a realidade da vida – caso de suas instalaç ões em grandes espaços institucionais no Brasil e no exterior –, agora Ana exibe essa série de trabalhos que cava um lugar entre a poesia e as artes visuais. Nem lá e nem aqui, aqui e lá, essas peças, ao mesmo tempo em que expressam dignamente essa ambigüidade tão característica da sua poética, apontam, igualmente, para uma ambigüidade presente na cena artística e cultural paulistana já faz praticamente meio século, e na qual a artista se inscreve quase que sem perceber. Refiro-me à tradição da poesia visual, tão praticada em São Paulo, desde os concretistas dos anos 50. Gratuita tal aproximação? Não parece, uma vez que, não por acaso, Ana Tavares foi aluna de Regina Silveira e de Julio Plaza, artistas próximos e caros aos poetas concretos de São Paulo, e que com eles chegaram a produzir trabalhos de grande interesse. O rigor com que, tanto os poetas concretistas quanto Regina Silveira e Plaza, pensaram as palavras em suas múltiplas potencialidades de significaç ão e enquanto elementos de um sistema intercambiável, deve ter sido passado para a ex-discípula que soube absorver todas essas possibilidades para usá-las quando sentisse chegado o momento para tanto.

No território meio movediço entre a poesia e as artes visuais, Ana se aproxima de dois outros artistas também importantes de sua geração, e que se manifestam por meio da poesia visual, embora não apenas: Arnaldo Antunes e a Lenora Barros. Como esses dois outros artistas que vêm constituindo suas produções na cidade, e a partir do clima poético e visual que os concretistas ajudaram a frutificar, Ana parece querer dar conta desse mesmo legado que, de alguma maneira, também contribuiu na formação de sua poética.

Assim, creio ser produtivo pensar esses seus mais recentes trabalhos como integrantes dessa tradição concreta agora em processo de transformação, contaminada por outras circunstâncias políticas e sociais, por outras demandas estéticas e artísticas que caracterizam a geração de Ana Maria Tavares. Embora essa inserção do trabalho da artista na tradição renovada da poesia concreta paulistana se faça necessária, (pois permite pensá-lo sob um ponto de vista menos restrito apenas ao campo das artes visuais), o interesse dessa exposição não se esgota nesse fato. Não é possível esquecer que, embora os trabalhos da série “Caça-palavras”, enquanto pura poesia visual (como se houvesse pureza nessa categoria de natureza híbrida), dialogam o tempo inteiro com a tradição da poesia renovada do concretismo, eles também, com a mesma intensidade são comentários, frutos e desdobramentos de uma determinada tradição das artes visuais, são produções que discutem e ampliam os conceitos sobre a arte de fundamentaç ão construtiva e também da pintura de gênero.

Pode parecer paradoxal a confluência aqui proposta: afinal, as vertentes construtivas lutaram para romper e superar os gêneros tradicionais da pintura e, de repente, surge a afirmação de que o trabalho de Ana Maria Tavares propõe uma espécie de síntese entre esses dois posicionamentos antagônicos. Mas tal paradoxo simplesmente reafirma a capacidade da artista em cavar um lugar para seu trabalho “entre” uma modalidade e outra, uma linguagem e outra, etc. A relação de suas obras com a tradição da arte construtiva se dá, sobretudo, pela concepção estrutural em forma de grade por ela usada. Essa opção enfatiza o caráter modular do trabalho que, por sua vez, cria ritmos de cor, de reflexos de luz. No entanto, apesar de estruturalmente ligada às vertentes construtivas – incluindo aqui o minimalismo e o pósminimalismo de onde sua poética descende de maneira mais imediata –, essas peças da artista refletem e discutem alguns gêneros tradicionais de pintura. Noturnos traz referências nítidas de uma instalação concebida em 1991 por Ana, para a exposição “Apropriações”, ocorrida no antigo Paço das Artes, em São Paulo. A instalação ali apresentada – Bico de Diamante – consistia de um painel verde metalizado e, à sua frente, uma estrutura tubular negra de metal sugerindo um elemento de impedimento de aproximação. De grande formato, o painel era uma efetiva alusão à pintura de paisagem e seu caráter pictórico era evidenciado pela opulência luminosa e colorida do painel, resultante da incidência de luz sobre sua superfície.

Encostado no anteparo negro e observando a paisagem reluzente à sua frente, o espectador era levado a uma espécie de encantamento, a um estágio de transcendência do espaço real, embora toda a proposta da artista partisse de uma inteligente apropriação dos elementos espaciais reais do recinto. Bico de diamante já propunha ou já se constituía como um belo exemplo de “VISIONES SEDANTES”: uma proposta delicada mas literalmentedeslumbrante e, por isso mesmo, sutilmente irônica. Nos Noturnos atuais, a mesma opulência do painel de 1991 reaparece trafegando entre o negro e várias tonalidades de prata e azul. Menores, eles não dialogam apenas com as grandes e tradicionais pinturas de paisagem mas, acoplando suas dimensões às palavras que os constituem, remetem, da mesma forma, à tradição da natureza-morta. “SUNSET”, “SUNDOW” fazem lembrar esquemas de paisagens já devidamente cristalizados nas memórias de todos. Já “SPARKLING WATER”, “CREDIT CARD”, por outro lado, remetem à natureza-morta dos dias de hoje. Se em português, e em outras línguas latinas, o termo “natureza-morta” diz respeito à captação de elementos da natureza já destituídos do sopro divino da vida, a uma natureza sem alma, em inglês e outras línguas próximas, “still life” remete a elementos da natureza colocados em estado de suspensão, como que sutil e (às vezes) temporariamente colocados além ou acima de nossa percepção cotidiana.

Em Noturnos, Ana Maria Tavares trabalha justamente com esse universo em suspensão que nos provoca a natureza-morta (e algumas paisagens também). Essas obras operam com palavras e/ou expressões que os transformam nas naturezas-mortas possíveis e características dos dias de hoje: “CREDIT CARD”, “SUNSET”, “SEXO”, “LEXOTAN”, “SUNDOW” – os dispositivos usados por todos para, saindo da alienação do cotidiano, entrarmos em outros estágios também muitas vezes alienantes, porém menos angustiantes. Dentro desta última perspectiva apontada, Noturnos deixa transparecer de maneira inegável o viés político que a poética de Ana Tavares vem assumindo desde, talvez, o início da década passada. Refletir sobre a cidade e seus aparatos de controle e passagem, refletir sobre os momentos e a necessidade de escape desses mesmos aparatos de controle (através das “visiones sedantes”) é operar no campo da polis, é dar à arte uma dimensão política sem trair as especificidades da arte mas também sem nelas se esconder das responsabilidades do artista.

 

São Paulo, julho 2004